domingo, 8 de janeiro de 2012

Alguns quilômetros pedalando na chuva e uma pasta de grão de bico mão na roda

Não preciso nem dizer que o bonitinho que mora comigo não gosta de grão de bico. Pelo menos ele se propôs a experimentar um grãozinho pra ter certeza se era o que ele imaginava. E foi botar na boca pra descobrir que as previsões dele estavam mesmo certas e que ele não gostava de grão de bico. Apesar disso, como ele vem aperfeiçoando o paladar, tenho que admitir que ele sempre se esforça para explicar as razões de não gostar de algo, o que nove entre dez vezes está relacionado a textura do alimento.

Particularmente, eu tendo a achar que problemas com textura é puramente cultural e pode ser resolvido com o hábito de comer determinada coisa. Ainda assim, apresentar determinado ingrediente em outros formatos facilita a vida dos que não gostam de sua textura e podem ser uma boa porta de entrada para a apreciação do gosto pura e simplesmente.

Foi o que fiz no caso dessa pasta de grão de bico. Quando comprei uma lata do grão pronto para o consumo já tinha em mente fazer algo do tipo, mais parecido com homus tahine, é verdade. Ontem eu abri a lata e usei metade dela numa saladinha apenas para mim na hora do almoço. O que sobrou virou uma pasta bastante saborosa para um lanche corrido hoje depois de pedalar um monte, embora não ao estilo imaginado por pura falta de tahine.

Sair para pedalar me fez bem, enquanto eu estava em plena atividade, bastando chegar em casa para me sentir completamente destruída. O corpo esfria e você sequer sente suas pernas mexerem apropriadamente - ou seja, com mínima coordenação - mas eu tava precisando mesmo de sair um pouco da vida sedentária que venho levando nesse início de ano, sair de casa, respirar ar puro e apreciar belas vistas de montanhas. E a bicicleta funciona bem para isso, pois dá pra ir devagar e sempre me concentrando para não perder o fôlego antes da hora.

Não tem foto de pasta, mas tem o visual do passeio. Inda peguamos chuva e me caguei toda - de barro - na volta do passeio.

Pedala, pedala, pedala, e... ah, o visual

Bem que o pessoal pediu um bifinho para o almoço pós-pedal, mas acho que a minha cara de destruída estava muito desesperadora que acabaram desistindo da ideia. Eu mais que pronto coloquei a pastinha salvadora em ação para comer com pão integral. E também funciona muito bem com biscoito doce, tipo maisena, por mais incrível que isso possa parecer. Acho que também serviria para passar em torradas e talvez até gratinada com pão como base.

Enfim, para a pasta bati no processador meia lata de grão de bico pronto que deveria ter uma xícara mais ou menos, com meio dente de alho, meio copo de iogurte [80 gramas mais ou menos], um punhado generoso de hortelã fresco, sal, um pouco de pimenta fresca e azeite. O negócio é ser bem batido até tudo virar uma pasta como um patê bem consistente. E vale muito a pena, além de ser rápida e prática para servir com ou mais variados tipos de pratos.

Esse é um jeito de comer grão de bico que funciona até com os mais resistentes, pois a textura muda completamente e, por isso, foi aceita sem maiores problemas aqui em casa pela parte menos, digamos, como-qualquer-coisa-que-me derem. Porém, sempre tem um porém, tenho que testar outras maneira com uma interferência menor dos temperos fortes como hortelã, já que o comentário foi : "Tá ótimo, tá tudo com gosto de hortelã! Ele tomou conta de tudo e o grão de bico é só um elemento QSP".

Eu falo isso desse jeito aqui no blog e pode até passar uma ideia de inesperado, mas foi só eu botar a boca na pasta que eu já senti que o comentário iria ser esse.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Batata assada que merece um crédito

O que pode ter de mais em comer batata assada? Tudo, quando elas são feitas no improviso, com sobras de outras refeições, de uma maneira que não se sabia se era correta ou não, ou mesmo se ia dar certo ou não e ainda assim, ficam absolutamente deliciosas.

Muito prática essa receita e o que deve dar mais trabalho é embrulhar as batatas em papel alumínio. No meu caso, ontem, as batatas já estavam devidamente temperadas e embaladas, porque foram preparadas para o churrasco de fim de ano, então foi só meter no forno e esperar.

Antes que alguém se assuste, as batatas estavam devidamente armazenadas na geladeira e estavam cruas. Desse modo, ficar aguardando três dias para irem para o forno não foi nenhum sacrilégio. Pelo contrário, as sobras do churrasco estão produzindo improvisações bem boas na minha cozinha. Acredito que para compensar toda a frustração da carne - o que me faz depender cada vez menos de bichinhos para me sentir satisfeita nas refeições. E quando eu digo satisfeita, digo tanto em termos alimentares quanto na questão do prazer de desfrutar de um belo prato de comida. Como eu disse hoje: a minha vibe natureba está indo de vento em popa.

Primeiro eu lavei um monte de batatas médias com casca e tudo. Isso deve ter sido no dia 31, antes do churrasco. Com elas bem lavadinhas e ainda molhadas fiz vários furos com uma faca pequena em cada uma das batatas. Essas batatas molhadas e furadas absorvem melhor o gosto dos temperos, já que elas serão temperadas ainda estão cruas. Dispus todas elas em um tabuleiro grande e juntei azeite em quantidade considerável, bastante pimenta rosa [acho que essa é a minha preferida], folhas e talos separados de um ramo de alecrim e sal. Elas ficaram marinado uma ou duas horas nessa mistura e depois foram embaladas em papel alumínio. Claro que ao embalar eu fiz questão de deixar algumas partes do tempero dentro do embrulho. Então é só esfregar a batata no tempero e enrolar no papel.

No dia do churrasco, com tantas opções para comer e algum descrédito dos "pseudo-churrasqueiros pseudo-ortodoxos" em relação a incluir vegetais no templo da carne elas ficaram meio de lado e só foram para a brasa no final, com todos já de barriga cheia. Até que alguém lembrou delas e falou: "Vamos botar as batatas?" Eu, que já tinha me decidido não me meter mais com as escolhas do que ia pra churrasqueira e de como ia ser feito, vi naquilo uma ótima oportunidade. Foi bom ter um acesso de discernimento nessa hora, porque nos meus cálculos gastronômicos - ou nas minhas ideias fixas pouco fundamentadas - as batatas deveriam ir para a churrasqueira junto com as brasas. Coisas que só se explicam quando se fica meio amalucada e exagerada por assistir demais aos programas de Jamie com seu estilo inglês estabanado e falsamente despretensioso.

Por algum motivo, uma centelha de sanidade brilhou no momento de colocar os vegetais para assar, e eu coloquei as batatas na grelha sobre as brasas. Na verdade a dita centelha foi a frustração de ter cebolas, poucas horas antes colocadas direto junto ao carvão, carbonizadas e sem gosto de nada quando foram retiradas de junto ao fogo sob o risco de ficar com a própria mão churrasqueada. Bem, tudo o que posso concluir é que não sei como ou porque é tão difícil para muitas pessoas aprender com os próprios erros. Batatas assadas depois, elas fizeram um tremendo sucesso junto aos comensais daquele fatídico evento e surpreenderam até os mais radicais. Aplausos para elas aos comentários de: "Não sabia que dava pra fazer batata na churrasqueira!" "Nunca tinha comido ela assim!" "E não é que fica bom!" Elas receberam um belo complemento de requeijão e passaram muito bem no teste do churrasco. Mas a barriga cheia do pessoal falou mais alto e não assamos todas na noite do réveillon.

No almoço do dia seguinte eu já estava com más intenções em relação a elas e por isso propositadamente não as coloquei na roda para o "enterro dos ossos" da noite anterior.

Elas ficaram então na minha geladeira até ontem a noite, quando calculadamente todas as sobras mais perecíveis já haviam sido consumidas e só restava um pouco de um ragu feito com a carne desfiada da costelinha. Não deu outra, mesmo sendo esse meu plano desde o dia seguinte ao churrasco, ou seja, desde o início. Batatas embrulhadas no tabuleiro, tabuleiro no forno e assistir um episódio de "How I Met Your Mother" enquanto espera. Fiquei meio apreensiva, já que o cheiro do papel alumínio no forno começou a exalar um odor meio metálico, meio queimado [óbvio!?]. Mas mantive e concentração no seriado e ignorei o cheiro. De fato, acho que na hora em que começa a cheira é porque já está quase pronto, então pode funcionar como um sinal para ir conferir o se as batatas já estão prontas, mas como eu coloquei o assado no forno de cima de um fogão duplo e com a temperatura mais alta, pode ser também que o tabuleiro estivesse muito perto da chama e por isso fez com que o papel queimasse.

Tudo isso não interferiu no resultado final. Para conferir se as batatas já estão assadas, com ou sem cheiro, é só abrir lá e espetar elas com o garfo. Estando macias e penetráveis pelo garfo, estão prontas. Uma vez prontas, desembrulhei elas, cortei-as ao meio e besuntei cada uma com uma colher de requeijão. POr fim joguei o ragu de costelinha de porco poer sobre elas e levei de volta ao fogo por apenas 5 minutos. O tempo de derreter o requeijão e esquentar o molho.

Ficaram absolutamente deliciosas, prato único para uma refeição nem tão leve assim. Lembram um pouco as servidas pelo restaurante Batata Inglesa, mas são bem melhores porque temperadas. Além disso, acho que por causa do tipo de batata [dessas lavadas comuns nos mercados] não ficaram tão ressecadas e farinhentas. Não sei, só sei que ficou melhor e com uma casquinha levemente tostada por fora. Amazing!!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um post mais ameno com um trauma quase superado

Veja bem como começa essa história.

"Você está pronta para um desafio?"
"Han!?"
"Não quer fazer aquele bolo que nunca dá certo? Tenta aquela outra receita que eu trouxe."

Explicação.

A pergunta retórica é para conferir uma falsa ideia de eu tenho alguma opção. Dito isso, o tal bolo é nada mais, nada menos que um clássico chamado "broa de fubá" proveniente nada mais, nada menos da casa e forno da mãe dele. Isso mesmo, o bolo que nunca dá certo é um feito originalmente pelas mãos da mãe do meu querido companheiro e que nunca deu certo saindo do forno de minha casa. Eu perdi várias vezes para o dito cujo até que deixei pra lá e internalizei que uma coisa tão prosaica como bolo de mãe deveria ficar aos cuidados apenas da própria, para ter algum sentido maior na existência do ser humano. Chegava a ser uma recompensa ir a casa da mãe para comer a "broa de fubá" específica, que só podia ser produzida dentro dos limites daquela cozinha agora tão distante da cidade que escolhemos para morar.

O bolo também é um sinônimo de inquérito familiar constante, o que não deixa de ser engraçado, pois é do conhecimento de todos naquela casa - pai, irmãos e anexos - que esse bolo só é feito o filho que mora longe vai visitar. Isso não deixa de ser verdade, mas essa história vale muito mais pela pilha da brincadeira e pelas paixões que causam na mãe em questão do que pela realidade dos fatos.

Mas, voltando para o lado de cá, é muito inconveniente, pra não falar absurdo, alguém te pedir para fazer um bolo que nunca dá certo: 1. verbalizando essa sentença; 2. implicitamente colocando a sua capacidade culinária tão prezada por você em dúvida; 3. botando pressão na forma de um desafio; 4. Numa tarde chuvosa que pede um bolinho; e 5. sendo o autor do pedido a pessoa que é.

Ainda um pouco desconfiada com tantos fatores emocionais e memorialísticos envolvidos na contenda fui procurar receitas de bolo na internet. Achei algumas interessantes e menos traumáticas e tentei ver se conseguiria substituir o pedido com uma alternativa viável. Donde saiu esta conversa.

"Você comeria um bolo de pera se eu fizesse?"
"Pera!!!? Por que você faria isso comigo?"
"É pra tirar seu trauma de pera. Eu faço com carinho e sem nariz!" - existe uma lenda da pera com nariz que eu já vou explicar.
"Eu tenho trauma de fubá! O que você pode fazer para me ajudar?"
"Um bolo de fubá com pera? [coloque aqui os risos da vitória retórica e a satisfação de poder contar com respostas rápidas]

Breve silêncio.

"Vai estragar o bolo. E fubá e pera não combinam."

Algum tempo depois eu me dirijo ao quarto/escritório para anunciar a vitória do oponente. Eu estava pronta para eliminar um trauma. O meu da broa de fubá.

Pausa para a explicação do nariz.

"Por que você não gosta de pera?"
"Porque não."
"Não é possível! Pera é tão gostoso!"
"É que uma vez eu mordi uma pera e tinha um nariz dentro."
"Como assim?"
"É tinha um pelinho que parecia um nariz! Horrível."

Pronto, tá explicado. E eu não inventei ou sonhei com essa história.

A vontade do menino de comer o bolo era tão grande que, como a receita anotada aqui em casa nunca funcionava [nem com as diversas adaptações que eu tentei fazer para corrigir o problema], certa vez ele foi na casa da mãe, fotografou sorrateiramente o caderno de receitas e me deu a foto para não ter erro. A primeira receita desse bolo foi anotada por telefone e já aconteceu de um tudo com ele, menos ele ficar comível. Já solou, ficou duro, deformado, meio assado - meio cru, uma nêmesis [de novo a palavra nova] de verdade. Com a fotografia em mãos fui preparar os apetrechos para fazer o bolo.

Olha a prova do crime.

O negócio dessa receita é bater tudo muito bem porque é quantidade dos ingredientes é cavalar. Em uma casa normal é bolo pra mais de uma semana, mas esse não é o meu caso. Para fazê-lo é necessário uma forma retangular grande [número 3] untada e enfarinhada, é claro. Então, foi pra batedeira 200 gramas de margarina ou manteiga [usei margarina porque queria acabar com ela e usei 50 gramas a menos do que pedia a receita porque era o que tinha no pote], 2 xícaras de açúcar [aqui também reduzi em uma xícara a quantidade pedida pela receita, já que meu paladar é meio enjoado pra coisas muito doces]. Nessa parte algumas muitas gramas de açúcar foram parar na bancada da pia devido ao meu método atrapalhado de separar ingredientes. Respira fundo e volta. Bati [eu não, a batedeira] até ficar um creme branco e coloquei os três ovos ainda batendo até aumentar o volume do creme. Depois fui medindo e jogando os secos na batedeira, sem desligar, apenas diminuindo a velocidade. Três xícaras de farinha e duas xícaras de fubá. Nessa hora eu me assustei. Achei que a batedeira ia explodir de tanta coisa dentro, pois ela começou a fazer um barulho esquisito de que não estava aguentando e o cheiro de queimado também já se pronunciava. Rapidamente medi uma xícara de leite e fui jogando na bicha pra ver se a coisa ia, mas a massa ainda estava resistente. Na fotografia com a receita pedia um vidro de leite de coco, o qual eu não tinha, e por isso acrescentei por minha conta uma xícara a mais de leite. Por fim coloquei uma colher de sopa e um restinho de fermento pra bater, algumas sementes de erva-doce e algumas de chia.

Fui girando a tigela da batedeira, o que fez com que as pás atingissem a farinha que ficou no fundo e produzisse uma linda nuvem branca por toda a cozinha. E eu ainda achando que a batedeira ia explodir e amaldiçoando o desgraçado que pensou em um projeto de batedeira que espirra tudo o que você pões nela. Só nesse bolo fui atingida por farinha e respingos de leite.

Com a massa sendo despejada na assadeira, o telefone toca. Cliente querendo modificações e acréscimos no serviço solicitado. Atendo e falou com o olho no tabuleiro cheio de massa sobre a pia enquanto o outro está lambendo a tigela de massa crua. Conversa resolvida, assadeira gigante no forno e espera. Contrariando tudo que eu aprendi em termos de adestramento de fornos temperamentais [com o meu primeiro e mais revoltado forno], eu coloquei uma temperatura mais alta do que venho utilizando ultimamente. Não sei porque eu faço essas coisa, mas faço. Simplesmente porque achei que ia dar. em menos de 20 minutos, eu acho, o bolo tava cheirando e atraindo pessoas loucas por bolo para o andar de baixo da casa. Fomos conferir o bolo e concluí, com o teste do palito [na verdade usei uma faquinha mesmo], que já estava bom, embora eu ainda achasse que ele estava mais baixo do que deveria. Bolo retirado e estaria perfeito se não tivesse ficado a beira de queimar de um dos lados [culpa do forno mais alto].

Nem por isso o comentário deixou de ser.

"Viu, acertou! A cara tá igualzinha!"

Com o bolo cortado e café pronto, comentário mais ou menos animadores.

"Tá do jeito que eu gosto: fofo e grande!"
"Quando é que eu vou ter que fazer outro, então?"
"Amanhã a tarde?"


Churrasco Parte II: A missão de fim de ano

Eu juro, não sei o que penso quando me proponho a determinadas coisas. Estava com essa pulga desde o fatídico último dia do ano passado - anteontem -, mas sem saber se devia ou não escrever sobre isso. Como protelei na escrita fiquei chateando a pobre alma que mora comigo com minhas insatisfações alimentares e sociais. Por sorte, creio que a opinião dele tende a ser muito parecida com a minha, especialmente no que diz respeito a parte do social e financeira - já que o evento não foi barato - e acho que ficamos os dois mal-humorados e ranzinzas durante "a virada".

Havia desistido de relatar tudo isso, porque é chato e levemente desagradável, mas atende a proposta número 3 desse espaço pessoal que é lembrar de coisas, sejam elas para serem repetidas ou não. Além do que, navegando por aí neste dia preguiçoso e feio [definitivamente os dias chuvosos não são pra mim], li alguns outros relatos de pessoas tão sensatas ou tão incomodadas quanto eu com situações como as que serão descritas que acho que fiquei mais tentada a fazer esse apontamento. Embora eu tivesse certeza absoluta que a pretensa felicidade da grande maioria das pessoas nessas ocasiões não passa de um clichê mal colocado e que não reflete de fato o que elas estão pensando ou querendo daquele momento.

Escrevo pelas razões [abaixo] que dei tentando amenizar a frustração do que me acompanha quando ele veio me ajudar na cozinha e falou o seguinte.

"Poxa, a gente teve que organizar tudo, perdeu tempo, gastou dinheiro e foi tudo um horror: música que eu odeio, gente feliz sem saber porque e comida ruim."

"Pelo menos serve de experiência para que nunca mais façamos isso."

"É mesmo, não quero mais saber de churrasco, só quero salada agora!" - Essa parte me deixou realmente preocupada com a sanidade mental dele.

Tudo começou com a ideia de fazer uma confraternização coletiva de fim de ano com algumas pessoas da vizinhança no condomínio. Muita empolgação inicial e pouca pausa para analisar o cenário como um todo, o que me levaria a concluir o óbvio: não tem como isso dar certo para todo mundo. O saldo geral das reuniões com os vizinhos, usualmente ornadas com churrasco, salvo uma ou outra indisposição com a comida motivadas pelo aumento proporcional de senso crítico em relação ao que entra dentro de mim, é satisfatoriamente positivo. Como toda reunião despretensiosa, cada um tolera, nas poucas horas de convívio, as manias, estranhezas e idiossincrasias mutuamente e o que fica é o papo agradável, as risadas e narrativas de episódios sem importância da vida de cada um.

Acontece que numa data festiva - como o réveillon - parece que todo mundo surta - é picado por algum inseto alienígena talvez? - e aquela ideia de reunião agradável e divertida não se encaixa na necessidade de fazer a "festa" e "comemorar" o ano novo. Só que, eu não sei em relação aos outros, mas para mim parece uma tremenda "forçação de barra" estar feliz e ficar cantando e dançando como se isso fosse uma atitude normal das pessoas envolvidas na questão. Coisas como: "Bebe aí para começar a se soltar". Abraços calorosos de pessoas que costumam a oferecer apenas um tratamento educadamente formal. Atitudes pouco sinceras e um desagradável desconforto potencializado pela incoerência entre ser e parecer. Todos em papéis construídos para uma situação atípica e completamente fora de propósito. Talvez se um observador distante analisasse a cena de pessoas dançando em volta do fogo concluiria que não passam realmente de primitivos seres estranhos, muito estranhos. E, segundo o adorável rabugento que mora comigo, o papel dele foi o de idiota. "Por que as pessoas tem que ficar dançando igual a umas loucas?" "Por que não podem simplesmente sentar e trocar uma ideia como a gente sempre faz?"

Eu não quero beber para ser uma pessoa que não sou normalmente. Obrigada, mas a minha vida é boa e na maioria das vezes me sinto bem comigo mesma, logo, não preciso de nenhuma ocasião especial para ser outra coisa, não preciso da permissividade de datas festivas socialmente estipuladas para liberar um traço oculto de minha personalidade. Sinceramente, eu gosto muito de ter controle sobre minha mente e meus atos para abrir mão dele por causa de bebida. Eu gosto do jeito que eu sou e quero ser assim sempre - na alegria e na tristeza. Ops! Até quando estou mal-humorada gosto de ser eu mesma em um estado que não é aconselhável chegar perto de ninguém, mas ainda assim eu mesma, entendendo que isso faz parte da vida e que uma hora vai passar. Isso tá parecendo aqueles conteúdos de fim de ano - outra coisinha abominável e desnecessária, sempre com os mesmos assuntos requentados e que são esquecidos, abandonados ou inutilizados no caminho -, mas não é não. É apenas uma reflexão pessimista, emburrada, porém autêntica.

O fato é que eu, ingenuamente, achei que seria mais uma reunião com conversa, comida e horas agradáveis, enquanto o mundo pensava em encher a cara, dançar músicas de gosto duvidoso e cantar alegre e desafinadamente algumas pérolas do cancioneiro popular como se isso fosse uma coisa normal. E até agora eu nem falei da comida. Ih, a comida. O que me deixa intrigada é que passam 364 dias e ninguém faz esse tipo de coisa nenhuma vez sequer, em nenhuma ocasião específica. Tanto que, um dos vizinhos que não participou do circo e ficou em sua casa, com a sua família, rindo e conversando na sala de estar, sem nenhuma música tocando e sem a necessidade de estar na "festa de réveillon do condomínio", nos causou um tanto de inveja e aumentou consideravelmente o nosso descontentamento. Tudo o que nós - eu e meu querido companheiro - queríamos era exatamente aquilo: estar sentado rindo e conversando, comendo moderadamente e no silêncio das músicas de elevador, ou seja, o que fazemos sempre sem precisar ficar entediado preso numa situação desagradável por pura convenção social.

Acho que não vou falar da comida, porque é um pé no saco. Churrasco, mal feito, com carnes que não costumamos comer - mas é réveillon, né?, e, pra completar meu infortúnio, nem o que eu me propus a fazer eu consegui deixar do jeito que eu considero aceitável, sem falar na minha mais nova nêmesis [gostei dessa palavra ultimamente], que é aceitar que o paladar das pessoas não é exatamente fruto de uma experiência sensorial objetiva e sim uma convenção muito relacionada a impressão que consumir determinado tipo de carne ou bebida - caros e supostamente chiques - passam até mesmo para quem os consome. Isso é meio estranho, mas já comecei agora vou terminar.

Comida pra mim deve ser cara por ser de qualidade e não porque pareço uma pessoa mais nobre se comer salmão no lugar de sardinha e beber vinho francês no lugar de vinho nacional. Posso gastar mais dinheiro que o normal com um tempero diferenciado - como a baunilha - por saber que aquilo irá incrementar sabor ao meu sorvete e por confiar que comerei um sorvete mais gostoso. Mas isso não vai ser incorporado ao sorvete como chancela de nobreza e diferenciação e nem pretendo que isso aconteça. Do mesmo modo, não quero comer um pedaço duro e mal feito de picanha, só porque isso confere um status de coisa fina ao churrasco festivo. Não sou rica e nem pretendo ser, não sou nobre e nem pretendo ser. Como com gosto coisas simples e bem feitas e sofisticadas se também forem feitas corretamente. Não abriria mão de um bom pedaço de picanha, desde que assada corretamente, no ponto certo e do jeito que tem que ser feita e não porque é "picanha, né gente?".

That's enough! Acaba assim sem final mesmo!

Voltei, pois olhando em perspectiva, tenho coisas boas pra contar. O melhor do churrasco foi a batata assada com requeijão. A costelinha de porco ficou muito melhor hoje, desfiada com molho de tomate, misturada ao arroz de "festa", com passas e ao forno. O melhor almoço de restos já comido, segundo fontes muito confiáveis. E, lembrei, ainda tenho batatas para assar.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quanto mais férias, mais pão. Mais um de canela e passas

Lembra da história do pão de canela é passas que todo mundo ama? Pois é, testei outra receita na segunda e vou anotar aqui para não esquecer porque ficou bem melhor que o anterior, com muito mais farinha integral [perdi o medo da farinha integral?], sem ficar fermentando de um dia para o outro. Apesar de eu ter encharcado o pão além do que a receita pedia #paomeleca #manianova levando uma verdadeira surra para sová-lo e dele ter ficado mais baixo que um pão de forma convencional. Mas também, quem precisa de convenções quando se tem um devorador de pão de canela em casa e ele fica espetacularmente macio. No fim ele ficou até bonitinho e só ficou mais baixo porque fiz meia receita.

Pena que foto não tem cheiro

Chega de ficar escrevendo por hoje então segue a receita. Mais uma da Ana Elisa do La Cucinetta. E as modificações, além de reduzir todos os ingredientes pela metade.

Usei 150 gramas de farinha integral, 62 gramas de farinha comum, 150 gramas de água [foi aqui que afoguei o pão, fui achando que dava e colocando mais água - por que será que é tão difícil segui receita?], 1 colher de chá de fermento biológico seco,  uma pitada de sal, 1 colher e meia de chá de canela [queria o gosto pronunciado], 15 gramas de manteiga, duas colheres de sopa de mel e cerca de 40 gramas de passas claras e escuras hidratadas em um pouco de vodka, além de 2 míseros damascos perdidos no vidrinho que clamavam por algum uso decente.

Omiti o maple syrup e coloquei mais mel pelo óbvio motivo de não ter isso em casa. Ainda não procurei para comprar, mas parece que minhas desconfianças sobre ter uma árvore de maple aqui na rua, em frente a minha casa, estão sendo confirmadas. Estou bolando uns testes para ver como a planta se comporta, mas hoje, enquanto jardinávamos a frente do condomínio, um vizinho soltou a pista de que uma conhecida havia dito a ele que essa árvore era usada para fazer mel. Esse bairro é só alegria em termo de planta. Além de ter um monte de frutas [hoje comemos as amoras maduras e doces de um pé que na verdade é um pedaço de tronco, plantado a pouco mais de três meses, que estava caído por causa da chuva e não tinha nem raiz ainda], ainda pode ter árvore de maple.

Também deixei passar o lance de molhar leite antes de ir para o forno, porque eu estava um tanto quanto atarantada na cozinha. E a colher de açúcar que estava na receita original pegou gripe e morreu.

Só mais uma coisa: o cheiro desse pão no forno, é uma coisa absurda de boa.

Updated [04/02/2012]: estou fazendo esse pão de novo e dessa vez foi ainda mais água. Cerca de 200g. Também achei muito, mas é preciso anotar que a massa não fica mole como as feitas com farinha comum e por isso acho que acabei colocando mais. Também usei meia colher de sopa de fermento seco pra ver o que acontece.

Comida pós-festas e um novo conceito: desintoxicação preventiva

A cabeça privilegiada que mora comigo criou essa pérola a alguns dias atrás fazendo referência ao almoço que continha uma salada caprese e uns bolinhos de arroz: desintoxicação preventiva. No dia ele queria dizer que aquilo não era comida de gente e ele ia ficar com fome tão logo acabasse a última garfada. Ao que eu respondi, sem perder a compostura, ainda, que era o meu modo de lidar com a comilança de fim de ano, ou seja, sendo comedida e talvez um pouco econômica demais nas refeições cotidianas. Já posso sentir o cheiro do churrasco de fim de ano!

Pois é, então eu resolvi adotar o absurdo conceito de desintoxicação preventiva e estou caprichando na leveza e valor nutricional dos pratos servidos nesta semana de interstício festivo. Sem abandonar os nossos outros mantras culinários de evitar o desperdício e ser prático e rápido de ser feito [tenho notado que sem a carne na refeição e com os vegetais certos qualquer prato passa a ser rápido e fácil].Não posso perder de vista que tenho uma reeducação para manter e tudo fica mais difícil estando de férias - em casa o dia todo -, com o Natal e o Réveillon para eliminar a necessidade de bom senso gastronômico e abrir a porteira da permissividade e do exagero. Eu ando meio radical com essa coisa do exagero na hora de comer. Isso pode soar chato e inconveniente, e de fato até é um pouco dessas duas coisas, mas eu estou oficialmente, e porque não, instintivamente, trocando a quantidade pela qualidade.

Hoje mesmo estava pensando sobre isso depois do almoço. Acho que me sinto bem comendo pouco, e, como eu disse no momento em que pensei, gosto da sensação de acabar de almoçar e estar satisfeita mas ainda com um pouco de fome. O espaço da sobremesa a ser preenchido, apesar de hoje ter dispensado o docinho de depois do almoço para ficar com a boa sensação de quem quem come gengibre em um macarrão feito na medida para manter a saúde e a sanidade - nesses tempos de comilança - em dia.

Mas o macarrão do qual eu ia falar aqui não é exatamente esse com gengibre, mas sim outro feito anteontem com massa integral e um molho de alho poró espetacular. Apesar do molho não ter sido assim tão leve, vamos dar um desconto porque os amantes de creme de leite também merecem um agradinho de vez em quando e eu ainda tinha um restinho de creme de leite fresco na garrafa que eu não podia deixar ver a luz. Pra compensar usei uma massa do tipo fusilli integral muito boa, que acho que será minha marca favorita para macarrão integral. A coisa toda é muito fácil para ser executada.

Essa foto não reflete o sabor desse macarrão.


Básico de toda receita de macarrão: põe a água no fogo pra ferver. Enquanto isso...

Pegue a tigela ou panela que será usada para servir [nesse caso tem que ser de vidro ou inox ou qualquer material que possa ser aquecido] e coloque sobre uma panela de água aquecendo no fogão. Despeje nessa tigela o creme de leite, uma gema, queijo parmesão ralado e noz moscada ralada. Misture bem. No meu caso eu fiz um refogado de cebola e alho poró na manteiga e coloquei no creme também. Quando o macarrão estiver pronto é só escorrer, dispor ele na tigela, mexer para que o molho incorpore e pronto, vai do fogão para a mesa e é certeza de aprovação.

Eu ia parar por aqui, mas agora me deu vontade de falar do macarrão de hoje que também ficou muito saboroso e bem mais leve. Fiz com liguine de trigo durum e muitos vegetais. Dá pra imaginar os comentários? "Nossa, quantos vegetais! Que coisa mais colorida. [coloque aqui um ar de desconfiança]".

Seguindo a lógica do não desperdício, tinha congelado os talos e pedaços de folhas de um maço de brócolis  a bastante tempo. Hoje esse congelado saiu da caverna para dar o ar de sua graça em um prato digno de nota - apesar de não ter sido fotografado. Então em uma frigideira grande em fogo bem baixo coloquei um pouco de azeite e gergelim para que ele liberasse um pouco do sabor e aroma. Depois refoguei um dente de alho em lascas até dourar, um pedaço de gengibre [uma parte em lascas, mas quando a paciência acabou meti ele no ralador mesmo], os talos de brócolis, cenoura cortada em cubículos e tirinhas [os cubos ultra-pequenos de cenoura haviam sobrado crus de uma pasta de atum de ontem e usei eles no macarrão hoje, mas como achei que a composição merecia umas tirinhas piquei mais um tanto de cenoura só pra ficar mais bonito], uma pimentinha vermelha que não arde nada e eu não sei o nome em tirinhas. Depois joguei um pouco de molho de pimenta vermelha, uma pitada de açúcar mascavo, um quase nada de água e esperei o macarrão ficar pronto. Massa cozida al dente, ou até um pouco mais dura pois o cozimento não será interrompido, e escorrida - não sem antes queimar a mão com água quente que pulou da panela quando eu soltei abruptamente um dos cabos que estava quente. Depois de tudo isso, uns pulinhos de dor e uma bronca carinhosa, consegui jogar o macarrão na panela com os legumes, dar um banho leve de azeite em tudo e acrescentar molho shoyu. Deixei o macarrão dar uma fritada de leve na panela, sem grudar muito e finalizei com cebolinha, castanha do pará em lascas [o dia da lasca e da tirinha] e um pouco de sementes de chia [odeio o fato de elas estarem na moda e odeio mais ainda o fato de descobrí-las somente por causa da moda, mas parece que tem um valor nutricional muito bom]. Já nas nossas cambuquinhas o macarrão ainda ganhou algum parmesão como adereço, porque resolvemos que seria batizado como yakisoba de inspiração italiana.

Agora chega. As duas massas são ótimas é muito fáceis de fazer. Como dizem por aí #ficaadica

O que você faz

O que você faz quando está na sala vendo novela da tarde - coisas que só as férias proporcionam - e aparece um sujeito na porta que dá para a cozinha abraçado em um pote de tampa verde, sorrindo com cara de carrocho pidão e esse sujeito fica te olhando com essa cara e, sem falar uma palavra, vem até você no sofá, coloca o pote de tampa verde do seu lado e sai?

Resposta: Granola.