sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Auspícios da vida no campo: ou surpresas agradáveis mesmo contrariando toda a lógica

Aviso: Este não é um conteúdo sobre comida. Pode até ser um conteúdo anticomida.

Tudo começou com uma bucólica, embora cinza, manhã de sexta-feira em que todos os moradores daquela casa estavam felizes por estar em casa e não no trabalho. Já bem alimentados, após um café da manhã tomado em ritmo lento, sem pressa alguma de ter que sair para fazer qualquer coisa desagradável fora dos 80 m² que os cercam. Satisfeitos em poder desfrutar de todo ócio de um dia como este emoldurado pela bela paisagem verde que ornamenta suas janelas todos os dias. Definitivamente, um dia para ser saboreado.

Nem mesmo a rotina doméstica seria capaz macular esse bem-estar de poder fazer ou não a faxina, de ter uma cama a alguns degraus de distância e todo o tempo do mundo para as pequenas coisas simples como cozinhar e planejar o que cozinhar.

Eis que a moça começa os afazeres de limpeza na cozinha. Lava a pouca louça do café, já que estivera tão contente, ao saber que iria acordar devagar e num horário humanamente aceitável, que já havia lavado boa parte do que estava sujo na pia na noite anterior. Então começa a organizar todo o entorno, colocando os mantimentos em seus devidos lugares, secando e guardando a louça limpa e limpando a mesa em que haviam tomado café. Por fim foi passar um pano sobre a bancada da pia, de modo a remover todos os farelos e sujeiras que encontrasse, abrindo caminho para a preparação do almoço.

Guarda a máquina que serve para tostar pão, muito utilizada em caso de emergência culinária, delicadamente e com cuidado leva a fruteira - finalmente cheia tanto que pesada - para cima da mesa limpa, leva para pia o copo padrão usado para facilitar o consumo de água, pega um termômetro, desses para mediar a temperatura ambiente, que estava indevidamente escorado entre a parede e a bancada da pia. E quando vai ao encontro de um cacho de bananas para enfim ver a bancada livre de qualquer coisa que pudesse atrapalhar a sua limpeza se depara com uma forma estranha, meio amarronzada, encostada no vértice formado pelo final da bancada junto a parede.

Inicialmente ela pensa, já espraguejando os menos organizados, que no caso poderia até ser ela mesma. Como esse filtro de café usado foi parar aí?

Ao que se aproxima do suposto filtro de café e chama o companheiro, que no momento estava a varrer as escadas, em um tom de voz um pouco acima do normal e pouco abaixo de um grito.

"Vem cá, rápido! Anda! Olha isso!?"

Ele olha e seu gesto de por uma mão sobre a outra e as duas sobre o peito, inclinando levemente o corpo para trás, denuncia a mistura de susto e admiração que sentiu naquele momento.

"Vou lá chamar o vizinho para ver!"

"Entra aí, chega aqui na cozinha pra ver uma coisa." É o convite sendo feito.

O vizinho também chega para ver a atração do dia e tentar confabular com o "homem da casa" um jeito de tirar aquilo dali. Seguem-se momentos de tensão e várias explicações de técnicas mirabolantes de como executar um resgate sem erro.

Eis que um dia normal vira um acontecimento simplesmente porque enquanto você está arrumando a sua cozinha encontra isto dormindo nela.

Note a calma e preguiça da bichinha


Apesar de parecer um contra-senso eu fico feliz de encontrar um bicho pegajoso como este na pia da minha cozinha só para dizer: "Ah! A perereca já morava aqui antes da gente chegar". Isso me coloca em contato com coisas que valorizo como o simples fato de vir um monte de gente tentando resgatar o bichinho e colocá-lo de volta no mato ou na água.

Aqui ela após o resgate,  livre para saltitar pelos campos


Depois de ser encontrada a perereca foi retirada da cozinha e colocada perto do portão do condomínio com um monte de crianças curiosas em volta pra poder ver "o sapo, o sapo". A bichinha deu um pulo do chão ao muro e voltou a dormir, que acho que era o que ela havia ido procurar fazer toda encolhida e quietinha sobre a minha pia atrás do termômetro escorado na parede.

PS.: Toda essa pequena confusão matinal foi filmada e documentada para consultas futuras ou apenas para divertimento dos que nos visitam. O filme "O Resgate da Perereca" conta com cenas de ação, tensão, hesitação, emoção, natureza selvagem e doméstica, estrelando "os salvadores de perereca".

Prelúdio de férias é café com panquecas.

Esse post está completamente fora de ordem. Era para ter sido escrito na terça-feira, dia em que tudo o que será contado aconteceu de fato, o que também deixaria o relato com mais sentido. Mas entre comer e escrever as coisas não saem lá muito como planejo, Na terça-feira, o final do meu dia foi muito corrido e meu fôlego [inspiração] para as letras não estava lá essas coisas.

Enfim, tudo que eu sei é que ficar em casa em um dia de semana é muito bom e foi exatamente o que me ocorreu nesse dia [não perca a conta, estamos falando de terça]. Devido a milhares de combinações cósmicas de eventos únicos [parece conversa de físico] eu pude me abster de trabalhar e aproveitar um dia inteiro em casa. Por isso que chamo esse dia de prelúdio de férias, já que nelas ficamos em casa vários dias úteis como o melhor dos bon vivants, pelo menos até onde seus rendimentos alcançam. E... Cafés da manhã em dias de ócio podem e devem ser feitos com menos pressa e mais novidades, tal como panquecas.

Agora que já deu pra entender a lógica do título do post, passemos a história das panquecas. Não exatamente toda a história da relação entre a panqueca e a humanidade, mas apenas uma breve ideia de como esse café da manhã surgiu. Como já sabia que ia ficar em casa pensei em "porque não fazer panquecas para o café amanhã". Até aí tudo bem, mas a parte estranha dessa história é que quando tive o pensamento, imediatamente, este post que agora escrevo foi sendo desenhado pelos meus pobres neurônios não muito ortodoxos. a começar pelo título que surgui tão logo eu imaginei a cominação panquecas + férias.

O que me leva a uma conclusão meio sinistra, pelo menos pra mim. Será que vou começar a comer o que escrevo? No lugar de escrever o que como? Trata-se de uma questão profundamente filosófica sobre o quanto  a sua cabeça pode ser esquisita e trocar os papéis das coisas. No mínimo é coisa de um lunático que só não é mais insana do que escrever tudo isso. Apesar de tudo só o futuro poderá dizer se ficarei viciada em escrever sobre comida e se isso vai atrapalhar a comida que faço. Por hora, acho que tenho que parar de ler Orson Welles.

Terra chamando.

As panquecas ficaram ótimas, "by the way". Usei uma receita clássica de café da manhã estadunidense [o povo da história mais radical e mais latina adora essa palavra] substituindo 30g da farinha comum por fibra de trigo por causa daquele lance dos alimentos com mais teor de fibras e tal. [Heidi Swanson Style]. A receita original está no livro do "Le Cordon Bleu", Todas as Técnicas Culinárias, mas fiz algumas modificações nas proporções pra deixar a panqueca mais molinha. Nesse momento, estou me sentido uma esnobe feliz, que além de agora citar receitas de "livros" de instituições ultra clássicas [e um tanto conservadoras, é verdade], modifica as "proporções". Oh! As proporções modificadas! Então, foram 120 gramas de farinha, 30 gramas de fibra de fibra de trigo, 150 ml de leite, o único ovo que tinha na geladeira, 1 colher de chá de fermento químico, 1 colher de chá de açúcar, 1 colher de chá de manteiga e uma pitada de sal. Bati tudo no mixer, que é um equipamento de cozinha super cool [isso quer dizer útil], e depois fui fazendo as panquecas na frigideira quente, não sem ter um imprevisto. A massa ficou muito líquida e depois que a primeira ameba saiu da frigideira eu achei por bem colocar mais uma colher de farinha na massa e bater bem.

Essa massa não pode esparramar na frigideira como aquela para rechear e enrolar, que conhecemos desde a mais tenra infância como panquecas mas na verdade se chamam crepe. Ela tem que ficar mais firme e fazer um disco gordinho que fica assado e se come com cobertura. Eu gosto delas com um mínimo de massa crua por dentro, não me perguntem porque. Então tento não deixar tempo demais na frigideira. Pra não dar problema eu despejo uma porção da massa - não que não tenha tentado colocar duas porções, mas elas insistiram em se unir, literalmente, contra mim - espero que umas bolhinhas pequenas apareça e viro o mais rápido que posso. Com discos menores também fica mais fácil virar sem fazer nenhum formato esquisito de coisa esparramada.

Comemos as panquecas com uma cobertura não muito clássica, mas nem por isso ruim, que foi geleia de jabuticaba caseira. Em algumas eu passei manteiga. Estava ótimo, além de ter nos livrado do pão que não deu certo logo pela manhã, o que poderia colocar nosso humor em estado letárgico por um bom período de tempo. Essa receita também quebra um galho quando não se tem nada em casa, pois leva poucos ingredientes e uma pequena quantidade de cada coisa faz um montão de panquecas. Acho que deram umas oito ou dez pequenas.

Não tirei foto das mesmas, porque quando acabei de fazer já estávamos com fome e ainda com a mesa da cozinha toda bagunçada. Só que a audiência vem cobrando pelas fotos no blog. Então como nada nesse posta faz muito sentido mesmo,  tornando-o quase uma versão literária de uma pintura surrealista de fundo esquizofrênico coloco uma foto da brusqueta que comemos de noite com o resto do pão que não deu certo. Pelo menos assado e cheio de molho ele ficou mais palatável. Jogar fora é que eu não vou! Zero wasting!

Belas brusquetas para um pão meia boca

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Para um jantar quente! Creme de lentilha picante com fubá

Eu tava afim de uma comidinha quente para jantar hoje. Apesar do título do post, não é o que aparenta, pois esse jantarzinho quente foi solo. Minha pretensão era comer alguma coisa quente não na temperatura mas em ardido, menos confort, mais up.

A foto não ajuda, mas é o que se pode fazer tarde de noite e com fome

Também parece ser uma sandice querer comida quente em pleno dezembro, mas estamos sendo agraciados por meses de tempo feio e chuvoso nesse verão e isso pode ser multiplicado por 10 quando o local em questão é minha residência. Aff! Fazer o quê! São os fenômenos climáticos que colocam por terra toda a espera pelas comidas de verão, justo no ano em que você decide fazer cardápio sazonal e se empolga toda com as possibilidades de comidas frias e refrescantes. La niña, I hate u!

De tudo isso, uma coisa é fato: eu adoro pimenta! E isso independe da estação, embora desconfie [ainda não é uma certeza] que no verão a mostarda seja a melhor opção para o efeito desejado. Não qualquer uma como já expliquei certas vezes para alguns interlocutores mais próximos. A minha preferência em termos "ardentes" são os tipos de pimenta ou tempero que quando você come a sua cara fica quente e parece que está saindo aquela fumacinha da sua cabeça igual desenho animado. Não gosto muito de pimenta que deixa apenas a boca ardida ou dormente, prefiro sentir calor e poder diferenciar o gosto da pimenta. Ultimamente, por isso, tenho me permitido experimentar diversos temperos que proporcionam essa "caliência", desde os asiáticos e árabes até as pimentas nacionais mesmo que vou tendo acesso aos poucos [algumas das quais nem sei o nome].

Voltando ao jantar quente de uma quinta-feira chuvosa, mas véspera de fim de semana, visto que estou dispensada de trabalhar amanhã [uêba, pensamentos felizes, risos soltos e acalorados nesse momento - será que pimenta da onda? que estou levemente embebedada pela quantidade de pimenta ingerida?] resolvi dar uma inventada com um prato que me veio por "insight" [eu não chego a sonhar com os pratos que preparo, até porque nunca lembro do que sonho, mas ultimamente tenho tido pequenas ausências momentâneas em que estou pensando em combinações de ingredientes e refeições possíveis - será normal?], assim, do nada. Eu nunca vi ninguém misturar fubá com lentilha em lugar nenhum, mas o momento era de livre criação, já que se ficasse uma porcaria eu ia ter que comer sozinha mesmo.

De uma completa incógnita a magnífica descoberta culinária foram exatas meia hora, ou seja, o tempo que esse prato levou para ficar pronto, o que também o habilita para figurar na série "Quick and Easy". Na verdade, antes mesmo de comer as minhas lentilhas picantes elas já podiam ser classificadas como deliciosa promessa olfativa. O cheiro na cozinha estava ótimo, a mistura dos temperos fervendo na panela parecia uma versão sofisticada das "Casas Pedro" [minha loja de temperos favorita, apesar de sua localização não muito prática em relação aos meus caminhos].

Tudo foi feito da seguinte forma: quando cheguei em casa, cerca de 2 horas antes de ir preparar a lentilha, coloquei de molho 1/4 de xícara de lentilha. Essa quantidade serve generosamente 1 pessoa que gosta de pimenta ou duas bastante comedidas [eu comi tudo sozinha, mas estava sustância porque hoje o dia foi meio escasso]. Na hora de preparar aqueci um pouco de manteiga e coloquei para refogar 1 dente pequeno de alho, na verdade meio dente grande que sobrara de outra comida qualquer; um pouco de cebola picada; um pedaço bem pequeno de gengibre também picado; um pedaço de folha tenra de alho poró; e um talinho de salsão picado. Triturei no pilão [brinquedo novo sobre o qual falarei melhor em outro post] três grãozinhos de pimenta branca, 1 cravo da índia com um pouco de canela em pó. No refogado juntei as lentilhas, deixei apurar um pouco e foi só juntar os temperos triturados, um pouco de água e meia colher de chá de curry. Só pra deixar claro, pus água no pilão para pegar todo o tempero triturado e depois joguei essa mistura na panela. A lentilha foi cozinhando e eu pondo mais água quando necessário. No final, com a lentilha já bem macia, misturei em um recipiente a parte uma colher de sopa de fubá e um pouco de água fria [acho que 1/2 xícara], o que foi pra panela também. Aumentei o fogo e mexi até engrossar como um creme. Uma vez engrossado o caldo está pronto pra comer e ficar passando calor a cada colherada.

Muito bom mesmo! Vou tentar em uma outra oportunidade essa mesma receita com menos curry ou gengibre, para os menos fanáticos por pratos apimentados. O fubá transformou o que seria uma sopa de lentilha em creme, uma consistência que apreciamos muito aqui em casa. Além de tudo isso, combinou bem com a lentilha.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um fim de semana sem inspiração, um pão que não deu certo e morango. Ah os morangos!

Yes, nós temos morangos!

Pra começar um post como esse, que mais parece um triste samba canção para um fim de semana chuvoso, nada melhor que uma pequena felicidade, já que ainda "é melhor ser alegre que ser triste". E, nada melhor para trazer pequenas felicidades sinceras do que o seu pé de morango dar morangos. Nunca acreditei ser possível plantar e colher qualquer coisa, embora nunca tenha me faltado vontade desde os tempos imemoriais em que se plantava feijão no algodão molhado para trabalho de escola.

Lembrando de feijões, a outra "plantação" da qual também tenho lembrança - quando ainda era um girino - é de uma cebola esquecida na geladeira que se agarrou em um pedaço de esponja [usada na época  para retar a umidade da gaveta de vegetais] e brotou. A bicha fez uma raiz gigante e só não me lembro se conseguimos utilizar a esponja depois disso novamente.

Mas não é que a minúscula muda de morango comprada em uma lojinha de plantas só de brincadeira é um verdadeiro Gremilin das frutinhas. Multiplica rapidamente e já está espalhando por toda a horta, sem utilização de nenhum produto além de água. E isso é uma grande satisfação.

Pé de Morango

Morango Antes

Morango Depois
Para quem nunca teve pretensão de ter alimentos plantados em casa esse ano até que foi bem frutífero e não posso me queixar. Desde que me mudei procuro manter uma pequena hortinha em vasos que já produzem os temperos que mais gosto. Manjericão [se a gente não comê-lo é capaz dele comer a gente], tomilho, hortelã, manjerona, orégano [que está florindo], todos em vasos.

Mas esse ano, com a criação de uma floreira e de uma horta no condomínio, já colhi tomates, couve, sálvia, rúcula e outras modalidades de vegetais nunca antes imaginados. De sujeito urbano que não conhecia nem o básico das espécies comestíveis que não vendem no mercado, passei a plantadora compulsiva; tudo o que brota da terra é plantado pra ver se pega.

O morango orgânico e caseiro estava realmente muito saboroso, do jeito como a fruta deve ser. Macio e azedo na medida certa, livre de contaminação e com gosto de quem não come morango há um século. Pelo menos desde quando se alarmou toda a população do nível de substâncias perigosas utilizadas nas plantações e presentes residualmente nos morangos de supermercado.

Então depois de um malfadado pão que levou um dia todo fermentando e não forneou bem. O pão parecia que ia mas não foi, ficou cascudo tipo quebra dente e machuca boca e com a massa muito densa. Era pra ser uma massa meio sourdough, que foi executada com muita paciência e parcimônia por quase 12 horas e que desandou na hora de ir para o forno. Primeiro porque foi um parto tirar o pão do pano em que ficou descansando para a superfície onde ia assar, pois a massa era delicada e mole demais para ser manuseada sem deformar. Uma vez no forno, o pão se comportou bem no início, demovendo minhas expectativas frustadas com a saga anterior ele deu uma crescida e começou a tomar forma. Depois o cheiro da derrota: o gás acabou [merda, merda, merda] e nem sei quanto tempo o forno ficou apagado.  Não sei se foi falta de vapor ou de gás, mas o troço desandou; demorou um tempão para ficar no ponto, muito além dos 30 minutos sugeridos na receita, e quando fomos comer: decepção. Nem tão sour assim, parecia mais uma overfermentação e com a casca dura demais. Ontem o miolo ainda estava macio, mas hoje me foi sugerido que usasse uma Makita pra cortá-lo. Bom nem só de sucessos vive uma cozinha.

Consequência: hoje a minha disposição para cozinha estava no nível zero. Eu já tava achando que pães artesanais não eram para mim e que de agora em diante só faria pães simples, com fermentação direta e já testados com sucesso por mim mesma. Esses pensamentos nefastos estavam contrariando toda empolgação panificadora que ontem me animou até a pensar em produzir meu primeiro fermento natural nas férias. Tentando colocar as coisas em perspectiva, tendo a optar pelo meio termo no qual os pães artesanais só serão feitos em dias de muita inspiração culinária e de sol [dias de chuva não me fazem muito bem], não sendo eles nunca uma opção para substituir o pão do dia a dia. Isso porque depois dessa experiência, como iremos comer o pão durinho assim mesmo, fiquei com peninha daqueles que terão que aturar a massa pesada pelo resto da semana, mesmo ele não tendo falado nada sobre esse assunto.

Mas aí veio o morango. Ah! O morango! O que ele tem haver com isso? Deixou meu dia bem melhor logo cedo e até o sol saiu [isso não é uma metáfora]. Meus pensamentos anti-panificadores foram sendo dissipados e acho que com o próximo pão bem sucedido, provavelmente uma foccacia tiro certo, e as férias se aproximando minha regulagem vai voltar ao normal e vou até arriscar um panettone. Afinal, eu até comprei um livro só de pães!!

Restabelecida a normalidade culinária nesta cozinha até o pobre pão ruim teve seu acesso ao estrelato. Virou ingrediente numa bela salada com manjericão, azeite, alho frito, pimenta cambuci, cebola e sardinha. Que recebeu um único comentário após ser comida no almoço: "E agora, o que tem pro prato principal?".

"Rá."

De todo o modo, esse fim de semana não foi lá essas coisas em termos culinarísticos, mesmo com a recuperação pós-morango. Tenho que fazer compras, porque estou adiando isso há exatas duas semanas, colocar algumas coisas para funcionar, de modo que mantenha meu espírito de comer melhor, e ainda tenho que superar o episódio da frigideira amaldiçoada que fez minha omelete de atum grudar no almoço de ontem. Tenho que dizer, apesar disso beirar a humilhação, que a frigideira é antiaderente. Por isso, acredito piamente que ela estava ou está amaldiçoada pelos deuses do ovo grudado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Almoço ou trabalho do mestrado? Gratinado de batata baroa

Eu perdi esse post inteiro por causa do teclado do computador. Será que eu começo tudo de novo? Tava tão pessoal e filosófico, que de repente eu perdi por um desígnio dos deuses para que tudo isso não ficasse pra posteridade. Pelo menos não perdi o trabalho que tenho que entregar.

Mas vamos, lá. Recapitulando o que eu lembrar.

Estou numa fase em que tenho um monte de coisas para fazer e pouca vontade de fazer o que devo, mesmo sabendo que é preciso. Fazer o quê! Não estou com paciência para ficar escrevendo um trabalho inteiro com o balanço da minha pesquisa de mestrado enquanto o mundo gira lá fora. Embora eu esteja aqui, nesse momento, escrevendo [e tudo de novo], um trabalho acadêmico não é algo em que se possa exercitar todo o seu potencial criativo, e essa constipação literária não me deixa muito muita margem para minha empolgação com a escrita.

O fato é que eu tenho lidado com isso de uma maneira mentalmente saudável. Não deixar tudo para a última hora e traçar pequenas metas para serem cumpridas diariamente tornam esse esforço um pouco menos sacrificante, garantindo a sobrevivência dos meus neurônios e da minha paciência. Exatamente como aconteceu com os trabalhos finais das disciplinas no meio do ano, durante esse processo eu fico mais reflexiva, mais atenta às coisas ao meu redor e um pouquinho mais criativa, mesmo que essas experimentações não possam ser utilizadas no trabalho do que vale nota. [É o fim dos tempos ser adulto e pensar no "trabalho que vale nota". Veja bem, eu disse "nota"].

Então hoje de manhã lá fui eu para a frente do computador dissertar sobre as minhas pretensões acadêmicas, quando tudo o que importa é o que você vai fazer para acabar essa joça no prazo. Ossos do ofício, do qual eu reclamo mas gosto. É bom poder ter pensamentos fora da caixa, ler o mundo de uma maneira um pouco menos óbvia e ser, às vezes irritantemente, desconfiada de tudo o que tem na aparência das coisas. O que acarreta um invariável pessimismo, do qual eu tendo a achar graça para não chatear os outros com minhas esquisitices, e uma ponta de sofrimento por achar que, como diria um grande amigo meu, "a humanidade é uma causa perdida". Acho que não irei esquecer desse ano de disciplinas do mestrado da fala de uma professora no final de uma aula sobre A dialética do esclarecimento e A indústria cultura do Adorno e do sempre esquecido Horkheimer [escrevi esse nome certo pela primeira vez, que orgulho! Fui no Google conferir e era assim mesmo], que era mais ou menos assim:

Professora: O fato é o nosso suposto desejo de ter um produto é na verdade apenas uma ideia criada pela industria cultural para inculcar esse desejo em nossa cabeça. A indústria cultural é uma face da necessidade que as corporações têm de nos fazer acreditar que a nossa escolha é individual e exclusiva, quando ela é apenas fruto desse padrão criado para que nós continuemos consumindo sempre e mais. [Essa fala é uma anotação de memória, que está sendo anotada de novo, então pode não ser exatamente assim que a coisa foi dita]

Professora: Então é isso gente, obrigada até semana que vem, vamos todos lá agora consumir coisas e fazer exatamente aquilo que discutimos hoje.

Ao que eu respondo: Pelo menos eu sei disso. Sei que estarei sendo alienada.

Já que não se tem escolha, a melhor maneira de participar desse jogo é sabendo como ele funciona e tentando minimizar a sua contribuição para que ele siga em frente. Por vezes me encontro proferindo a célebre frase: "A ignorância é uma benção!". Mas, de fato, não creio nisso e penso que se existe a impossibilidade da mudança, a consciência pelo menos redime um pouco da frustração.

Acho que perdi o texto até aqui e, agora que o recuperei do meu próprio HD movido a carboidrato, chego a conclusão que:

1. Minha memória é boa. Consegui escrever ele quase na íntegra de novo. Donde: Cérebro humano 1 X 0 HD artificial.
2. Minha paciência, tolerância e resignação estão em níveis elevados. Eu poderia ter desistido de escrever, ou amaldiçoado para todo o sempre o meu computador, mas não, eu comecei tudo de novo.
3. Eu tô com um caboclo escriba no corpo hoje. Estou desde de manhã escrevendo e só parei para fazer o almoço.
4. Eu gosto mesmo de manter esse blog. E isso me deixa feliz!
5. Minha estratégia para terminar o trabalho que é obrigação está dando certo. Meu tempo controlado me permitiu escrever - DUAS VEZES - o mesmo post.

Mas eu vim aqui falar do almoço, que além de ser rápido, prático e cheio de lições de aproveitamento dos vestígios de refeições passadas, também caiu muito bem com uma salada básica de alface e tomate da horta. Nada mais nada menos do que um gratinado de batata barôa [ou mandioquinha], com um molho de creme de leite, atum, alho poró e um restinho de salada de cenoura.

O queijo ficou mais branco do que se esperava.


O que eu fiz foi fatiar a batata barôa em rodelas tipo chips [o que me custou um corte no dedo por causa daquele maldito ralador/fatiador de R$ 1,99]. Depois misturei uma lata de creme de leite [e foi-se embora mais um item do meu armário que como já disse hoje aos que me acompanham só voltará em fevereiro quando estivermos curados da ressaca nababesca das "Festas"], uma lata de atum e um restinho de salada de cenoura, tomates cereja cortados, azeitona, damasco, passas brancas e ervilhas [se eu não estiver em casa o resto de qualquer coisa que lembre salada permanece inalterado nos recônditos frios da geladeira]. Temperei com shoyu e mostarda Dijon [ganhei esse pote de mostarda Dijon e fiquei muito contente]. Untei um refratário e fui montando uma camada de molho, batata barôa e molho [vezes 3]. Joguei algumas rodelas por cima, preenchi os espaços com lascas de atum e finalizei com uma boa porção de queijo parmesão roots [comprado no tio da Delicatessen e que não tem marca]. Forno por um bom tempo, pois a batata tem que cozinhar e pronto.

Só comer e ficar feliz de ter uma coisa com creme de leite pra mastigar. Esse foi o pensamento do meu querido companheiro que me brindou, mais uma vez, com um de seus comentários indefectíveis: "Tirando o grão-de-bico, tá ótimo". Seria um elogio bacana, se... Alguém viu grão-de-bico em algum lugar nesse post? Pois é, ele viu na latinha, ontem, junto com o os outros itens das compras.

Esse é o típico prato da cozinha efetiva, permite que você coma bem e faça seu trabalho de mestrado quase ao mesmo tempo.

Esperem só pelo episódio do ovo grudê. Coming soon.

domingo, 27 de novembro de 2011

Geleia... De novo... De jabuticaba

Fui fazer geleia de novo, depois da saga da geleia que virou calda que virou sorvete de amora e da segunda tentativa mais bem sucedida, mas dessa vez de jabuticaba. Eu adoro jabuticaba, principalmente se for pra ficar comendo in natura em quantidades excessivas, estourando aquelas belíssimas bolinhas pretas na boca com casca e tudo. Entretanto não me lembro de ter comido a geleia da fruta, o que me soa um pouco estranho, mas levando em conta os lapsos de minha memória pode ser que seja isso mesmo, ou não. O fato é que essa geleia me rendeu boas surpresas desde antes de eu pensar em fazê-la.

Pão de aveia e geleia de jabuticaba caseiros. Viva a autossuficiência doméstica!


A primeira surpresa foi o meu encontro - literalmente - com a jabuticaba. A temporada da fruta já passou por aqui e eu fiquei meio frustrada de não ter conseguido nem umazinha sequer pra comer, menos ainda um monte delas para testar minhas habilidades geleificantes. Ei que ao caminhar pela rua no centro da cidade dou de cara com um saquinho cheio de bolotinhas sobre uma banca conhecida. Passo por elas e sou atraída de imediato, num instante a luz do "eu preciso disso" acende, ao que eu volto e pergunto a moça na barraca: "Isso é jabuticaba, né?", não resisto e levo o saco pra casa imaginando a geleia a ser produzida.

No dia seguinte, ontem, separei metade que foi direto para o freezer e com o restante comecei os preparativos para fazer a geleia tentando me organizar mentalmente para não fazer a bagunça tradicional quando se trata desse tipo de compota. Nem preciso dizer que o esforço foi em vão e meu caminho até o nirvana da compota sem caos na cozinha ainda será longo, mesmo tendo o conforto de saber que estou apenas no início dele e na quarta tentativa de toda uma vida.

Até determinado ponto tudo correu muito bem; lavei as frutinhas e as escorri, espremi com as mãos [sem pedaço de nada voando pela cozinha, o que me deixou satisfeita], coloquei tudo na panela para aquecer e fazer a jabuticaba soltar líquido e apurar seu sabor, tudo isso com apenas uma panela um escorredor e uma colher de pau sujos. A perfeição. Minha concentração estava mantida nas etapas e o foco em uma única tarefa, ao contrário do que normalmente ocorre, funcionando a contento.

Só que - como em toda receita que exija um pouco mais de técnica - em algum momento vai acontecer da pessoa voltar ao seu estado natural e dotada de todo seu avoamento característico produzirá o verdadeiro caos com a falta de jeito de quem nunca entrou em uma cozinha antes. E no meu caso, dessa vez, foi a hora de passar as jabuticabas levemente cozidas pela peneira para separar o caldo das cascas e caroços. Comecei tentando usar o escorredor com uma bacia em baixo: muito grande e com furos pequenos demais. Fui de peneira de plástico [porque a de metal enferruja]: muito pequena e mole demais, não conseguia apertar com a colher para extrair toooodo sumo da fruta. Aí, no auge da falta de noção pensei: "vou espremer com a mão": quente demais. Alguns palavrões mentais e uma determinação huge [não achei outra palavra ainda - quem sabe até o fim do texto] monstro [achei a palavra, antes de acabar o texto] fizeram eu persistir na empreitada de "peneirar" aquele caldo colorido. No fim de tudo, até minha alma estava cor de jabuticaba, num tom meio roxo, meio vermelho, o que dizer então da pia, fogão e chão da minha cozinha. Camisa pintada, mãos rosadas, braços e rosto respigados depois, meu caldo de jabuticaba estava pronto para receber a metade do seu peso em açúcar que lhe faltara.

Pesei o caldo e o açúcar, passa pra lá e pra cá aqueles resíduos todos e comecei a fase três com momentos de grande tensão. Explico. Um dos meus pesadelos culinários é o tal do ponto da geleia, porque fico excessivamente preocupada em passar do ponto - tendo em vista o meu primeiro grande trauma -, tendendo, portanto a não atingi-lo, produzindo um doce com consistência mais líquida do esperamos quando se trata de geleia para passar no pão [e não para molhar o pão]. Vasculhei incansavelmente a internet atrás de algum site|blog|texto que explicasse, e sobretudo mostrasse, o ponto correto de retirar a geleia do fogo, mas para a uma cabeça [a minha] "nunca fiz geleia antes" tudo era muito vago e pouco ilustrativo. Como eu vou saber como é uma calda grossa o suficiente se eu nunca vi uma antes? Convenci-me de que teria que ser no prosaico método de tentativa e erro até que na leva em que comprei os primeiros livros de culinária para chamar de meus [já encomendei a segunda remessa na fatídica sexta-feira de ode ao consumo chamada ironicamente de Black Friday] tinha o Conservas e Compotas específico sobre geleias, compotas e afins.

No livro, além de várias receitas, estão algumas técnicas, utensílios necessários e pasmem... uma fotografia com o ponto correto da geleia. Não é preciso dizer o tamanho da felicidade súbita que me acometeu ao ver aquela foto. O investimento no livro já havia valido à pena só pela por me fazer visualizar algo que do qual eu só tinha uma ideia abstrata e porque finalmente eu consegui entender o que toda aquela história de pingo que não pinga significava. Eu não tirei uma foto da minha geleia de jabuticaba ao atingir o ponto correto [pode me bater agora] e também não vou usar a do livro, mas prometo que na próxima tentativa eu vou me esforçar para lembrar de fazer isso, mesmo se o caos estiver instaurado no momento.

No meio de tudo isso, enquanto eu estava lá mexendo a calda no fogo esperando pelo ponto certo com tudo bagunçado ao meu redor, me dei conta do quanto eu gosto de de fazer geleia. Assim como outras coisas na cozinha, como pães, fazer geleia me deixa feliz gratuitamente, mesmo sem eu nunca ter tido oportunidades de fazer esse tipo de doce antes ou mesmo sem nunca ter pensado que era uma coisa da qual eu podia gostar. E, num momento claramente filosófico, fiquei emocionada e realizei que o estilo de vida que tenho hoje é algo que me satisfaz plenamente, apesar de nunca ter esperado por isso, ou saber que ia ser assim tão diferente da vida que eu tinha antes de me mudar. Cheguei a verbalizar esse momento de satisfação com uma coisa tão simples como ter frutas frescas e produzir minha própria comida e comentei: "Sabe, eu gosto de fazer geleia! É uma coisa que me faz bem. Não só pelo fato de cozinhar, mas de poder ter acesso as frutas e todo o resto. Pelo novo estilo de vida".

A geleia ficou pronta com uma consistência satisfatória, embora não tenha ficado tão espessa [ai, meu trauma subconsciente]. Para minha próxima surpresa, ela é de um tom vermelho para roxo e eu sempre achei, não sei porque cargas d'água e sem nenhuma fundamentação lógica ou científica, que a geleia de jabuticaba era mais pro roxo enegrecido. Mas, como em algum momento levemente amalucado, por causa daquelas embalagens com as frutinhas pintadas que confundem a minha imaginação, eu pensei que geleia de cassis fosse de jabuticaba, não é nem tão estranho assim.

A outra surpresa ficou por conta do comentário que saiu da boca do meu querido companheiro após provar a geleia: "Ficou boa, mas tá muito doce, não? O doce tirou um pouco o gosto da jabuticaba". Apesar da crítica, essa frase é motivo de orgulho, já que a referida pessoa não sabia a diferença de gosto de um queijo para o outro há menos de três anos. Para alguém que cozinha para outra pessoa assim a evolução, digamos, gustativa, expressa na forma de um comentário tão elaborado - pelo menos no que diz respeito a percepção dos sabores - é algo a ser comemorado. De fato, a geleia ficou doce, mas acho que foi por causa da doçura inerente a fruta, já que a quantidade de açúcar foi a de sempre.

Nada que atrapalhasse a performance da geleia.

Update de mesmo dia: mantendo a linha e evitar o desperdício, não quis jogar o resíduo de cascas e caroços no lixo [nem sabia, mas as propriedades nutricionais da jabuticaba estão mesmo é na casca]. Então bati tudo no liquidificador com água e coei o líquido, o que resultou num creme espesso, muito parecido com acaí, mas ácido demais no sabor. Ainda assim dispus o creme em potes na geladeira para ver o que fazer com aquilo. Agora há pouco fiz a descoberta revolucionária: misturei duas colheres desse creme de jabuticaba com iogurte e granola e fui feliz com a experiência do lanchinho cor de vinho. Vou congelar uma parte para ver se cabe num bolo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Pão com abas: pão de aveia em formato de cogumelo

Precisava de um pão hoje. Não necessariamente para comer, mas para amassar. Com minha nova rotina alimentar - a qual vai muito bem, obrigada - acabo não comendo tanto pão e, consequentemente, fazendo-os com menos frequência do que gostaria. Mas hoje não. Eu precisava de um pão.
Olha o pão.


Outro fator que inibia um pouco a panificação nesta casa, era o carregamento exagerado de pães de forma que meu querido companheiro trazia para casa a cada ida no mercado, justificável apenas em caso de uma guerra nuclear ou da fobia da falta de pão. Tudo bem, moramos longe de qualquer coisa que se pareça com o mercado. A padaria mais próxima fica a 30 minutos de uma caminhada pela estrada, o que faz com que  o planejamento das compras leve em conta algum estoque de itens básicos. Apesar disso, comprar dois pacotes de pão quanto ainda tem um fechado em casa é um pouco demais. Com tanto pão pronto não sobrava muito espaço para fazer mais deles sob o risco de estragar ou comermos de modo não muito educado.

Então, pedi a ele que não comprasse mais pão, porque eu ia fazer um para esse fim de semana, tanto para colocar mais grãos integrais no café da manhã [pois é, o pão nosso de cada dia é branquinho, branquinho] quanto para poder finalmente, depois de tanto tempo e um fracasso com um pão de centeio que ficou meio pedrinha, amassar alguma coisa.

Estava inclinada a produzir umas broas de milho que vi no La Cucinetta, que por sua vez, viu no Come-se [site incrível] até ler meu feed ontem e dar de cara com essa pão de aveia. Parecia perfeito e com a descrição ideal para as minhas pretensões de substituir o pão branco: era um pão fofo. Ainda relutei hoje cedo sobre qual pão seria dessa vez, mas optei pelo de forma quadradão como há muito eu não fazia.

Fiz algumas substituições na receita, porque não tinha melado [troquei por mel] e quis usar um pouco de farelo de trigo [30 ou 50 gramas]. Além disso, a farinha integral não deu. Fui jogando ela na balança e vendo o pote ficar mais vazio, mais vazio, o ponteiro da balança descendo e eu apelando para os deuses culinários e torcendo pela multiplicação da farinha. Em vão. Ficaram faltando 50 gramas que completei com centeio.

Todo o processo correu bem e fiz o pão com certa tranquilidade, exceto pelo shape final. Na medida em que fui colocando os ingredientes para a mistura via a coisa ficar meio embaçada: quanta farinha! Não pensei nisso no início, porque às vezes [quase sempre] sou meio cabeçuda e não leio as receitas até o final. Vou pegando tudo e fazendo ao mesmo tempo, quase sempre sem mis en place [tanto que faltou farinha].

Amassei com o método de Bertinet [meu padeiro favorito ever]. Deixei fermentar e modelei, não sem sofrer um pouco com a malemolência da massa. Com o rolo pronto, percebi da pior maneira que teria que encaixar o Rio de Janeiro em Niterói, como se diz por aqui. Coloquei a massa pra dentro da formas, mas ela ficou espremida e meio sem jeito, como quem viaja de avião nessas companhias mequetrefes que temos a nossa disposição. Deixei pra lá e paguei pra ver.

O formato de cogumelo
Depois de assado ele ficou ótimo no sabor mas estranho no formato. Parecia um cogumelo deformado, mas um cogumelo engraçado, convenhamos [vou postar a foto pra comprovar, assim que a câmera carregar]. A parte que cresceu para fora da forma não conseguiu se sustentar e deu uma caída pelas laterais. Tendi, nos primeiros estágios de forno, a achá-lo parecido com o pão do homem-elefante, mas na verdade acho que ele ficou mesmo foi com duas abas perfeitas para transporte. Tudo isso não tirou seu mérito de pão relativamente fácil [acho que com uma batedeira iria ser completamente fácil] e gostoso.
Pão com abas.

E com manteiga.

O pão ficou enorme e um pouco massudo na parte de baixo, pois o pobre coitado não teve espaço e força para expandir na forma diminuta. Ainda assim, não ficou duro ou denso demais, mas sim com uma textura daquelas que enche a boca e com um docinho absurdamente bom. Testado, aprovado com méritos e com a exigência de uma repetição sem o aperto da primeira tentativa. E fica muito bom torrado também.