domingo, 25 de março de 2012

Matando um italiano do coração: pizza de liquidificador

Isso nem pode ser chamado de receita. Quando foi feito? A long long time ago. Já nem me lembro, mas foi antes de eu abandonar o blog. Estava no rascunho a um tempão, pelo menos antes de 06/03. Retomando...

Eu ia chamar esse post com um nome lindo e pomposo como "Voltando aos clássicos" ou algo que o valha, mas aí meu comentarista gastronômico entrou na cozinha na hora em que a tal "pizza" de liquidificador estava assando e me saiu com esse gloriosos título.

Uma heresia? Mataria um italiano do coração? Não sei. No entanto é o que se pode fazer quando por volta de 8 ou 9 da noite e você tem 0 massas de pizza descansadas e fermentadas para colocar a cobertura. Não foi de caso pensado, porque esse post tá parado a um tempão, mas pizza de verdade vai ficar para semana que vem - a última antes da dissertação.

Assim, esse post nasceu com seu título engraçado, a receita foi apenas um pretexto. Mas todo mundo tem seu "dia da vergonha" fazendo pizzas que não merecem usar esse nome e reproduzindo receitas cuja promessa de facilidade remete aos mais sombrios e heréticos programas de culinária da TV. Vou colocar a receita aqui apenas como uma forma de nunca me esquecer desse episódio, porque sinceramente nem achei que ficou isso tudo.

Não estou conseguindo achar a receita novamente. Viu era isso que acontecia antes de eu manter o blog, fazia um troço e perdia um tempão procurando no Google, tentando lembrar os caminhos que me levaram àquela receita específica. Foi só parar umas semanas e aconteceu de novo. Estou procurando ainda, mas lembro que uma coisa me chamou atenção no dia: ela levava uma quantidade de farinha integral e por isso foi a escolhida na ocasião.

Não achei no meu histórico - o Google guarda o seu histórico de navegação todinho na web [fear!] - nenhuma pizza de liquidificador integral. Acredito ter usado essa receita aqui, substituindo meia xícara de farinha pela integral. A cobertura foi de atum com molho de tomates, só que a pizza ficou fina igual biscoito porque eu usei uma forma um tanto quanto desproporcional para a quantidade de massa que tinha no liquidificador. Foi o tipo de coisa que você vê que não cabe, sabe que não vai dar certo, pensa em mudar mas faz errado assim mesmo, ignorando sua intuição culinária.

Pelo tom que venho usando e pelo relativo descaso demonstrado pelas palavras acima já deu pra perceber que esse post não será visualizado muitas vezes, pelo menos não por mim. Fotos? É melhor nem perguntar.

domingo, 11 de março de 2012

Considerações sobre o porquê o risoto tem que ter frango

Por que tem que ter frango no risoto? Porque você ganha um de presente! Isso não faz nenhum sentido pra você? Acompanhe a história toda.
Resultado Final
A pergunta vem de um dilema existencial que começou no dia do desafio de cozinhar sem recursos em cozinha alheia. Depois que decidimos fazer um risoto de cenoura e vagem para o jantar, a anfitriã desta contenda me questionou acerca do frango. "Como não tem frango? Nunca vi risoto sem frango!" Foram essas as palavras proferidas para gerar desconfiança e discórdia durante toda a preparação da refeição. Não sei de onde ela tirou a ideia de que um risoto tinha, necessariamente, que ter frango em sua composição, mas foi assim que tudo ocorreu até o último momento, ou a primeira garfada. Na verdade, a história do frango no risoto assombra até as lembranças mais recentes, toda vez que a conversa nos remete àquele jantar.

Mas essa não é a parte mais estranha dessa história, pois o que se pode dizer de ganhar um frango assado de presente, ou melhor ganhar um peito do bichinho pra levar pra casa. Pois então, é isso que acontece comigo e já virou anedota no trabalho. Fazia tempo que não recebíamos um franguinho de presente, cheguei a achar que a tal remessa tinha cessado, que era só uma preocupação passageira, por causa do início das coisas, mas eis que eles voltaram e com força total. Explico.
Olha o frango aí, gente!
Na semana retrasada, na quinta-feira para ser mais exata, o meu querido companheiro foi visitar os pais - depois de longuíssimos "1" mês sem ir fazer o ritual de retorno. Chegou na quinta, dormiu, me esperou sair do trabalho e voltamos os dois na sexta-feira depois do almoço. Visita de filho naquela residência é sempre um motivo válido para os excessos: de comida, de palavras e de outras tantas coisas que não me lembro agora. Na hora de ir embora, são tantas coisas oferecidas para levar que até fico tonta e um tanto quanto aborrecida de ter que ficar dizendo "Não, não precisa." Na verdade as frases adequadas, que a minha educação e bom senso não me permitem dizer são: "Tá doida, quem é que vai ficar carregando quilos de feijão, bife, frango, e até alho por vários quilômetros quando se tem mercado perto de casa. Não moramos no mato, não."

É claro, eu nunca disse isso desse jeito, embora negue com certa veemência a maioria das ofertas sem noção que nos são feitas. E ainda escuto: "Não fica olhando pra ele, não, que ele não sabe de nada, diz o que você acha." Como já disse, é melhor eu nunca ter vontade de dizer o que eu acho, digamos, de verdade. E é assim, desse modo, que os frangos sobem a serra, se é que existe tal pergunta. Isso é o resultado da impossibilidade de recusar tudo e ter de que ceder algumas vezes porque, afinal, não é preciso criar caso por qualquer coisa, desde que eu não tenha que trazer bife cru e alho pra casa. Além do mais, já virou tão anedótico que é melhor deixar assim para a diversão geral das pessoas, porque também não sou a paranoica - já fui pior, no início, embora sempre tenha tentado a via do bom senso - que entra nessas competições com mãe alheia.

Enquanto todas as outras pessoas da face da terra presenteiam seus entes queridos com bolos, frutas, doces em compota, biscoitinhos amanteigados e toda uma sorte de guloseimas delicadas e fofas, o pobre ente querido da minha sogra - e eu por consequência - ganha frango assado de presente da mãe. Ganha bolo de fubá também, aquele bolo de fubá, mas isso não é tão engraçado assim. Eu, inocentemente, achei que fosse uma coisa passageira, reflexo de alguma preocupação alimentar com filho recém-saído de casa, principalmente depois que paramos de encontrar, ao chegar em casa, um pote com frango entre os bolos e as outras coisas - além de oferecer ela ainda escondia alguns desses itens bizarros no meio das outras coisas quando a gente recusava -, mas agora vejo que não é bem assim. Paciência e bom humor para lidar com coisas esquisitas.

Voltando para sexta-feira, estávamos no carro, a caminho de casa, desesperados para chegar logo, quando comentei: "Porque sua mãe voltou a mandar frango, não precisava. Eu tava doida pra comer macarrão com atum e agora vou ter que despachar esse frango antes." Ao que o meu desolado e vencido companheiro respondeu: "Não teve jeito, eu só falei pra ela que mandar frango e carne assada era muita coisa." Uma vez em casa, guardamos tudo e o cansaço, a preguiça e o mal-estar da outra parte me fez cancelar qualquer tentativa de jantar. comi um sanduíche ou qualquer coisa que não me lembro e o pote com o frango foi direto para a geladeira sem escala.

No sábado, resolvi que ia fazer risoto com o quê? Com o frango é claro. Mentalizei um risoto de frango com brócolis e limão. Cortei os buquês de brócolis, cozinhei rapidamente, separei uma parte para o freezer e fui pegar o frango para desfiar. Quando abri o pote: surpresa! Fui ao encontro da criatura amável que limpava do andar de cima enquanto eu cozinhava e mostrei a obra de sua mãe. Abri o pote pra ele e lá estavam, juntinhos, um peito de frango e um pedaço de carne assada. Não me contive em rir da cara frustrada dele e só falei: "Ela te enganou, foi muito ardilosa essa sua mãe". Agora eu tinha um frango e uma carne assada para despachar em forma de pratos. Oh my God!!!

Entendeu porque a gente não escolhe a família que nasce? A minha também não é normal, tenho que confessar, só não dá frango de presente. Sandices a parte, já que cada núcleo familiar tem seus malucos e problemas num universo em que ninguém é normal, e agora que todos já sabem da incrível história do casal que ganhava frangos, o risoto ficou uma delícia e me ajudou a cumprir com o mandamento de outra criaturinha meio anormal que diz: "Farás seu risoto sempre com frango".
O montinho característico da foto de risoto.
A história, contudo, é melhor que o prato que levou cebola picada refogada na manteiga com um fio de azeite, uma xícara de arroz arbóreo, frango desfiado e brócolis no olhômetro [acho que uma xícara de cada um], raspas de limão e suco de meio limão. Mexi tudo muito bem e fui juntando caldo de frango com legumes de concha em concha até o arroz ficar cozinho al dente. Pra finalizar queijo muçarela ralado, manteiga, meia colher de chá de sal, pimenta do reino e noz moscada.

terça-feira, 6 de março de 2012

Viagem longa, conversa produtiva ou a inveja saudável (literalmente): tomates vermelhos assados

Título longo, comida rápida. Não podia deixar passar a oportunidade de usar um pouco de construção na forma de escrever.

Esse prato - rápido, saudável e indolor - é fruto de uma conversa que tive ontem com uma grande amiga, que também é a leitora mais assídua deste blog. Desconsidera-se o fato dela ser a única leitora, não muito frequente, mas que merece ser reverenciada por isso. Encontrei com a conversa acidentalmente, ambas estávamos à caminho do nosso trabalho, que por acaso é no mesmo prédio. Digo por acaso, pois já éramos amigas de infância há pelo menos uns dez anos, logo, desde antes dela começar a trabalhar no mesmo setor e prédio que eu.

Calor e aborrecimentos com o trânsito - cada vez mais caótico - à parte, as duas já no ônibus, conversamos sobre os assuntos do fim de semana e para minha total surpresa ela direcionou a conversa para assuntos culinários dizendo:

"Lembrei de você esses dias... Lá em casa tinha dois tomates grandes... Eu não gosto dessas coisas grandes, mas marido compra assim mesmo. Então eu cortei eles e assei no forno por um tempo e quando ficou assim... Ele fica murchinho, né? [Sinalizei que sim com a cabeça] Tirei, coloquei queijo prato por cima, aqueles temperos nada naturais que têm lá em casa e foi pro forno de novo "

Ao que eu respondi:

"Fica bom, né?" [Coloque aqui uma certa confusão mental de palavras proferidas sem pensar num momento de sonolência, uma vez que pensando bem, agora, não me lembro de ter comido tomates assados. Apesar de saber que ela vai ler isso e se deparar com a minha total honestidade, tenho que manter a transparência para este blog de memórias, gustativas inclusive]

Eu acho que confundi os tipos de prato, pois sempre como tomate recheado cru, não assado.

Voltando a história. ela continuou:

"Pois é, e me encheu, ficou bom e foi o meu jantar. Lembrei do blog, porque fiz rapidinho."

Agora fala se eu não estou fazendo discípulos da alimentação saudável, porém rápida, mesmo quando se está sozinha em casa?

Bom, eu não resisti a essa conversa e fui pensando no jantar com tomates assados no longo caminho de casa. A inveja saudável entra aqui. Matutando sobre os meus próprios tomates assados fui listando mentalmente os ingredientes disponíveis na minha cozinha para a refeição saudável e copiada das experiências alheias.

O resultado foi: duas bandas de tomates débora sem sementes e sem o miolo [fiz um buraco no tomate retirando toda a polpa que ia atrapalhar a entrada do recheio], salpicado com pimenta moída na hora, sal e açúcar. Depois, preenchendo as cavidades que ficaram, recheio de restinho de atum, cebola picadinha, polpa do tomate picadinha, o caldo que solta das sementes quando peneiradas, queijo minas padrão em cubículos e molho shoyo. Por cima e pra dar uma graça, uma noz picadinha. Até porque não aguentava mais aquela noz solitária me olhando. Forno bem quentinho por uns dez minutos e pronto. Fui na horta e peguei umas folhas de rúcula para acompanhar e dar a sua contribuição verdificada e tirei uma fatia de pão caseiro para acompanhar só porque havia feito exercícios e precisada de um pouco de carboidrato. Não fosse isso, só o tomate seria perfeito com o suco de limão que também fez companhia a este jantar - solo mais feliz.
Olha eles aí!

Agradecimentos especiais a quem deu a ideia e, vamos dizer, ensinou o prato. Já que ela não tem um blog e lembrou de colocar no meu. Aí está. Créditos para ela, com as felicitações de quem não poderia imaginar que um dia ia aprender um prato novo vindo dessa fonte.

Só pra terminar, quando contei a ela sobre o meu jantar de ontem a reação foi apenas essa: "Hum, invejinha..."

sexta-feira, 2 de março de 2012

Funghis pra que te quero. Um risotto com os dois Ts

Esta receita está muito atrasada, pois ainda era resquício de feriado de carnaval quando eu resolvi prepará-la. No sábado, depois de toda uma semana de descanso, passeios de bicicleta e cozinha para aproveitar um pouco da disposição que eu tinha, estava pronta pra encarar um risoto de verdade e com um traço de sofisticação.

Até então minhas experiências nesse campo se resumiam a risotos meio fakes, ou seja, com arroz comum, sem  manteiga [considero esta a maior das heresias] ou sem vinho. Em suma, faltando vários elementos ou apenas um deles, nunca a minha lista de ingredientes estava completa para reproduzir um risoto genuíno, pelo menos não como consta nos manuais de culinária. Apesar de eu, é claro, não dar a mínima para purismos e certezas imutáveis tentando sempre valorizar o sabor dos e a experiência culinária como itens imprescindíveis para a minha cozinha.

Mesmo assim, mesmo achando que a falta dos ingredientes tradicionais de um prato não é impeditivo para a sua preparação, não custa nada, de vez em quando e sempre que as condições favorecerem, seguir uma receita como ela deve feita com base na tradição que criou determinado tipo de preparação. Clássicos são clássicos em qualquer esfera e merecem ser ao menos conhecidos eventualmente, embora eu não tenha muita certeza sobre o que esta frase quer dizer e nenhuma ideia filosófica mais profunda sobre o conceito de clássico para nenhum campo do conhecimento, que fique bem claro, não tenho pretensões de criar causo por causa das possíveis implicações de fundo elitista que ta proposição possa acarretar.

Pra ficar bem mais chato [e meio acadêmico, sinônimo?], considero aqui clássico como algo ligado à tradição, mais também ao icônico e ao simbólico, bem como, e porque não, à abstração. Por exemplo, existem um zilhão de combinações e tipos de risoto por todo o mundo, incluindo aí todos os regionalismos e variações provenientes da Itália, seu país de origem. O que não nos nega um certo patrimônio cultural único que resumem neste prato um valor simbólico e ao mesmo tempo representativo da culinária italiana como um todo. Além disso, existe também o conceito de risoto, o qual prevê um prato com arroz, manteiga [que poderíamos dizer gordura cremosa, para ser mais extensivo] e queijo [os mais variados tipos] e este é o terreno da abstração. That's enough! Isso tá igual monografia. Boo...ring!

Depois desse tratado quase epistemológico e bem presunçoso sobre ser a coisa, falemos da coisa em si. Antes que minha audiência de 1, 2, 3 e talvez 4 pessoas vá embora achando que estão no blog errado. Será que estou sofrendo de carência acadêmica? Só porque fui na Universidade hoje e falei sobre coisas acadêmicas um tantinho de nada? Nããão!

Vários fatores [e algumas ideias malucas sobre "como organizar sua despensa"] fizeram eu adiar a preparação do verdadeiro risoto [com todos os itens oficiais] por alguns longos meses. Não muitos se compararmos com a quantidade de anos que passei sem saber do que eram feitos os risotos de verdade. Sim, eu também achava que era só um arroz enfeitado. Como já disse, eu sempre estava com algum ingrediente faltando na hora H; eu moro a uma distância considerável dos mercados com alguma decência; eu não faço coleção de alimentos de mesmo tipo - nas suas diversas variedades - no armário de compras. Como já tinha arroz branco e integral, nada de mais arroz até acabar.

Pouco tempo atrás, enquanto no meu armário o arroz branco ia de despedindo, no mercado uma caixa de arroz arbóreo esperava por mim. Trouxe nas compras e ele ficou lá aguardando a sua vez. Confesso que o funghi meio no impulso, um pouco antes, numa ida a delicatessen me abastecer de outros itens. Vi o pacotinho lá no balcão e lembrei do risoto [lembrei também que não tinha o arroz certo, mas ignorei na hora], titubeei e mesmo assim pedi ao vendedor para incluir. Nessas relações comerciais mais pessoais não existe espaço para desistências. Aos poucos eu ia juntando tudo o que era necessário para concluir esta missão.

O dia não poderia ser mais propício. Pedalamos pela manhã, fomos ao novo point de ciclismo recém-descoberto e batizado de "o açude". Voltei faminta; não a ponto de comer um braço; tanto que ainda tive discernimento e clareza para decidir preparar um almoço, resistindo a tentação de comer qualquer coisa. O que não aconteceria se estivéssemos no limite da autofagocitação. Decidi então que era chegada a hora, apesar de ter tomado tal decisão sem muita precaução ou antecedência. Banho rápido e cozinha.
Não tenho palavras [sério, eu não tenho mesmo - nada me vem a cabeça]
Hidratei o funghi com um pouco de água quente e piquei ele em pedaços menores. Retirei do freezer um pote de caldo de frango caseiro [dessa vez tinha até caldo - um luxo, risoto completinho] e umas cascas de abóbora e pus tudo pra ferver completando com água até fazer aproximadamente um litro. Juntei a esse caldo a água do funghi hidratado. Piquei cerca de meio talo de alho poró e comecei a fazer o prato propriamente dito. Numa panela larga: um pouco de manteiga, um pouco de azeite e alho poró pra refogar; uma xícara de arroz arbóreo e o funghi picadinho para incorporar o sabor; pouco menos que um cálice de vinho branco, tchiiii, fumaça e aroma de vinho. Depois que o álcool evapora um pouco foi só ir juntando o caldo e mexendo para cozinhar o arroz al dente. No fim, mexendo a panela em fogo baixo, uma quantidade generosa de manteiga e outra quantidade generosa de parmesão ralado na hora. Essa receita é bem simples e resolvi não inventar muito para deixar com que toda a intensidade do funghi reinasse absoluta no prato. Coloquei um pouco de pimenta do reino, mas abdiquei do sal em função da manteiga e do parmesão já serem salgados o suficiente.

Ficou, na minha modesta opinião, muito aprovado e com grandes chances de ser repetido [ainda tenho funghi]. O companheiro que não gostava de cogumelo não resistiu a segunda rodada de risoto e comeu feliz como se não houvesse amanhã. Na verdade, segundo ele, o desgosto pelo cogumelo estava diretamente relacionado ao champignon, o que, convenhamos, faz todo sentido. Expliquei pra ele que essa conserva de champignon do mercado é uma afronta e nem pode ser classificada como comida, mas ele ainda estava reticente. Agora suas desconfianças acabaram e o caminho está livre para outras variedades de fungos comestíveis, dessa vez bem frescos, gordinhos e esponjosos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Como era gostoso meu francês. Já que a padaria não faz direito só me restou essa opção

Esse pão francês ficou espetacular. Quando saiu quentíssimo do forno direto para a mesa, passei a manteiga que derreteu imediatamente e dei a primeira mordida não contive a minha empolgação. Emiti uma série de grunidos estranhos de felicidade, me sacudi na cadeira com a cabeça de um lado para o outro, quase cantalorando e quase emocionada.

Vê se a padaria faz igual?
Com casquinha quebradiça.

Já havia tentado produzir pães franceses em casa algumas vezes, mas por uma série de fatores não obtive resultados que satisfizessem o meu paladar. E digo isso não apenas por uma questão de ser muito exigente - o que sou, principalmente quando quem vai pra cozinha sou eu - mas porque todos os pães desse estilo tentados anteriormente não superavam o das padarias medianas que existem por aí aos montes, nos vendendo misturas prontas de empresas de caráter duvidoso com água.

Em pensar que nesse dia, quarta feira de cinzas, quase desisti de fazer pão porque eu estava bastante estabanada. Máquina de destruição em massa style. Enquanto fazia os gingersnaps deixei várias paradas caírem, sujei muito mais louça do que o necessário porque ia fazendo tudo meio truncado. Depois que acabei a massa dos biscoitos, pensei em não tentar pão nesse dia e fui estender roupas. O que aconteceu? O varal de chão desmontou todo, porque o pino que segurava as coisas no lugar voou para longe. Eu, bem, eu fiquei lá toda contorcida com uma trouxa de roupa numa mão e o varal quebrado na outra sem saber como equacionar o problema de não deixar a roupa cair no chão segurando todos os arames do varal para que ele não se desfizesse por completo. Cena de pastelão total, porque eu tava tão avoada que não pensei no óbvio: largar o varal, que devido a teimosia enroscou no meu dedo, e colocar a trouxa de roupa em outro lugar. Não fiquei eu lá toda torta tentando sabe lá como salvar todas as coisas juntas.

Dito isso, não porque eu insisti em fazer pão, mas ainda bem que tive coragem. Na verdade acho que estranhamente fui fazer pão francês porque não queri tentar um pão com muitos ingredientes, o que considerei como difícil depois dos acontecimentos do dia. Só que, apesar de levar praticamente apenas farinha, fermento e água, esse é um tipo de pão complicado para se reproduzir em casa [vide as minhas outras tentativas frustradas]. A massa é complicada, a modelagem idem e o forneamento nem se fala. Não sei onde estava com a cabeça quando resolvi isso, mas de fato, foi uma escolha feliz, já que a quantidade reduzida de ingredientes e uma receita pronta para se seguir à risca [nada de invencionices] tornaram tudo mais fácil.

Receita da Ana Elisa, retirada do Professional Baking não tem como dar errado mesmo. Embora, também posso considerar que o aumento gradativo da minha experiência com pães me ajudou a chegar no ponto correto desse aqui. Primeiro porque a quantidade de líquido da receita já não me assusta mais, tampouco a textura melequenta da massa que faz você duvidar que vai ficar modelável. Se fosse em outras épocas a minha confiança de que aquilo iria ficar homogêneo e se transformar em uma bola lisa e macia era zero e a solução seria tacar farinha na bicha. Motivo pelo qual a panificação doméstica é o lar dos pães pesados, massudos e com gosto de fermento. Fermento é outro ponto importante, já que qualquer receita da Ana Maria Braga e companhia não leva menos do que 50 gramas de levedura fresca - exagero total para a maioria dos pães. É sempre preferível dosar o fermento para menos e aumentar o tempo de fermentação para garantir que o processo seja concluído e não deixe resíduos no gosto do pão.

A receita é essa aqui. Não tão complicada, exceto pela sova, que deu um pouco de trabalho e exigiu uma dose extra de paciência. Não foi problema, porque ainda me divirto sovando pão e trabalhando com as mãos. Mais um perrenguinho na hora de modelar porque a massa ficou mais úmida do que o esperado e grudou um pouco nas mãos, nada que farinha não resolvesse. E, todas as mandigas conhecidas para fazer vapor suficiente no forno de casa. Pão pronto e deliciosamente degustado ainda quente, só faltou mesmo uma assadeira apropriada pra ficar igualzinho ao da padaria.

No dia seguinte ele ainda estava muito macio e leve e mesmo feito tostado na sanduicheira ficou uma beleza.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Nonfat Gingersnaps por uma abordagem minimalista

Estou novamente com uma imensa falta de vontade de escrever neste blog. Mesmo que sentir falta imensa seja um paradoxo linguístico, uma vez que a ausência não é mensurável e, portanto, não pode ser imensa. Licença poética a parte, não tenho andado com inspiração para a escrita e tudo o que eu tento escrever fica parecendo, aos meus olhos, algo que já vi em outro lugar ou, pior, um texto burocrático. Não, assim não dá! Até porque, convenhamos, de textos burocráticos o universo já está cheio.

Acredito que essa falta de inspiração também seja reflexo de um desânimo bem característico que me acomete depois do carnaval, quando de fato o ano começa a tomar contornos seriedade. Já tentei lidar melhor com isso, mas todo ano é a mesma coisa; últimos dias da semana do carnaval e o calafrio na barriga sinalizando que agora não tem mais jeito, acabou a moleza e, consequentemente, a parcimônia do resto do universo que de algum modo tem contratos ou necessidades que envolvem diretamente você - pessoa que até agora foi cozinhando tudo o que pode com a intenção de prolongar, mesmo que indevidamente, a sensação de estar de férias, mesmo que parcialmente. Ah! Deixa pra depois do carnaval...

Agora o depois do carnaval chegou e, trevas, acabaram as doses diárias de consolo proporcionadas pela sensação de que o mundo ainda não começou a girar de fato. Acho que por isso, passei por essa semana como quem espera algo, acordando cedo, dormindo nem tão cedo assim, contando cada um dos dias com a satisfação de que a semana ainda estava no começo [isso até dois dias atrás, é claro]. Parecia que o mundo estava acabando, quando na verdade é sempre o início que me dá certo arrepio. Apesar de tudo, vou me recuperar depois que as não tiver mais jeito e a segunda chegar, simplesmente, porque isso é assim. E este é o pensamento que estou procurando manter comigo para evitar desperdiçar os meus últimos dias de descanso ficando com uma tristeza irremediável.

Falei tudo isso pra dizer [ou para me contradizer] outra coisa. Como o blog é uma fonte consulta para minha pessoa saber quais receitas funcionaram e como elas foram feitas, nos meus dias de falta de inspiração e/ou preguiça de escrever eu iria optar por uma abordagem minimalista. Apenas para manter o registro em dia, postaria receita, método, erros e acertos e foto, quando houvesse. Seria uma espécie de post "quick and easy". Eu não perderia a informação e a memória dos fatos, tranquilizando assim a minha alma, mas também não iria precisar escrever uma pequena crônica diária a cada prato preparado, evitando assim o enlouquecimento precoce e algumas crises de ansiedade devido a sensação de "tenho que colocar isso no blog". Mente sã e zen é o que venho precisando.

Deixa só eu falar do que não falei lá em cima e lembrei agora. Como o desânimo "quarta-feira de cinzas" [mesmo que eu não não seja uma pessoa assim tão carnavalesca ultimamente] eu também acho que perco um pouco a minha capacidade de ficar atenta às coisas que acontecem no meu dia a dia. Vivo esses dias como se vivesse em um mundo blasè, em que tudo passa por você e não deixa impressões ou lembranças, nem mesmo as desagradáveis. É uma coisa muito ruim, porque não lembro das piadas e comentários engraçados do meu querido companheiro, nem das sensações que tive ao experimentar determinado prato. Logo em seguida, vai-se embora a minha capacidade de verbalizar aquilo que aconteceu. Perder a habilidade de registrar o mundo observado é o primeiro sintoma da falta de inspiração. Ou seria o primeiro motivo?

Eu ia, juro que ia, neste post, executar a proposta de receita anotada com simplicidade. Estava planejando apenas dar a explicação dos motivos da decisão rapidamente e, então escrever a receita em questão. No entanto já estamos a parágrafos de distância dessa possibilidade por pura e simples incoerência entre teoria e prática. Além do simples fato que na maior parte das vezes superestimo o tamanho ou a dificuldade da empreitada antes dela começar. Como eu já disse, a inércia é uma das minhas piores características [lido com isso e me esforço para não ceder a ela] e, por isso, inclusive, a fonte dos meus pesadelos sempre está nos inícios. Depois que eu começo a me mexer tudo fica muito fluido e normal. Viva o Newton!

Os biscoitinhos dos quais falarei neste post foram realmente um grande achado, fruto de algumas muitas e insistentes pesquisas na internet. Isso porque, já a algum tempo, eu venho procurando por alternativas saudáveis para aqueles famosos lanches fora de hora. Aqui em casa, não consumimos desses salgadinhos de supermercado, tampouco lanches prontos congelados. Entretanto exageramos um pouco na quantidade de biscoito de maisena e cream cracker, os quais, apesar de serem opções menos piores, ainda passam ao largo do quesito alimento saudável devido a quantidade de gordura interesterificada [nome chique de um tipo de gordura que substitui a hidrogenada]. Além, é claro, de todos os químicos que não seriam sequer classificados como comida numa análise das mais superficiais.

Fiz algumas experiências com receitas de cookies e biscoitos caseiros para tentar substituir um pouco da quantidade dos industrializados, mas a maioria das receitas que achei levam quantidades impublicáveis de manteiga. Sou adepta da manteiga como melhor tipo de gordura sólida a ser consumida e até consegui eliminar a margarina desta casa, mas não há quem consiga manter uma produção satisfatória de biscoitos caseiros a base de manteiga. Tanto pelo teor de gordura, quanto pelo preço da manteiga. Nosso orçamento doméstico não nos permite tais extravagâncias.

Não satisfeita com a maior parte das receitas publicadas em português recorri a uma varredura na internet em língua não nativa para ver o que poderia encontrar. Resultado: nesse ponto os gringos estão há anos-luz da gente. Encontrei muita substituição interessante para a manteiga e acho que terei uma gama maior de possibilidades para produzir meus próprios snacks e cookies. Creio que a pouca tradição em produzir cookies caseiros talvez contribua para a falta de opções sobre o tema por essas bandas, mas não sei ao certo se é só isso. É claro e evidente que os cookies amanteigados tem a incrível característica de derreter na boca, especialmente aqueles de são quase 1:1 em relação a farinha, o que é uma das vantagens incontestáveis desse tipo de massa. No entanto, o prazer da gordura pode ficar restrito a ocasiões específicas e esporádicas e ainda assim existir a possibilidade de ficar roendo uns biscoitinhos mais moderados no intervalo entre uma refeição e outra.

O achado está no site do David Lebovitz, para o qual eu só tenho elogios até aqui, já que acima de tudo o homem é um curioso. A receita é muito boa, os biscoitos não tem exatamente a textura de um cookie, mas em compensação não levam nenhuma gordura. A consistência da massa é resultado da mistura de melado com applesauce. Tive que fazer adaptações para substituir o applesauce, o qual seria uma espécie de purê de maça que não existe [pelo menos eu nunca vi] no Brasil. No lugar dele coloquei uma banana prata com aproximadamente o mesmo peso que a receita pedia de applesauce. Como nada é perfeito, num lapso de falta de atenção, eu li corretamente a receita várias vezes e na hora de fazer acabei trocando o bicarbonato de sódio por fermento químico. Coisas de uma mente atrapalhada potencializadas pela receita em língua estrangeira. Ainda consegui retirar um pouco do fermento e colocar bicarbonato no lugar, mas só saberei o quanto isso interferiu no produto final quando repetir a receita.
Fofos, inofensivos...
Fiz a receita na quarta-feira de cinzas [muito propício] e sob fortes pressões contrárias, já que eu estava num dia "máquina de destruição em massa". Tudo caindo da minha mão, gemas de ovo furando, panelas tilintando na cozinha e o estresse "nada tá dando certo" a uma pequena distância de me atingir. Contrariando a todos os indícios que me avisavam que eu devia me manter longe da cozinha eu fui em frente e não sem algumas reclamações e palavrões proferidos mentalmente, fiz essas belezinhas de biscoitos - que já acabaram - e ainda arrumei coragem suficiente para assar um pão. E um pão francês! Surpreendentemente espetacular.
E merecem um close!
Ah! A textura lembra mais um pão de mel, mas eu tenho quase certeza que foi por causa do fermento. Logo depois de assados, quando ainda não é para comer os cookies [mas quem liga para as recomendações de todas as outras pessoas], o gosto da banana [que também estava no limite da madurescência] estava muito pronunciado, o que foi suavizando na medida em que os cookies foram esfriando. Enquanto eu estava preparando só conseguia sentir cheiro de bananada. Um cheiro muito bom, mas também desconfiantemente forte. Felizmente, tudo deu carto no fim.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um aperitivo pra chamar de seu. Esfihas de um carnaval produtivo.

Geleia que funciona [com muito poder geleificante], sorvete de amora com calo na ponta do dedo, quibe de forno com recheio de pasta da grão de bico e esfihas que por enquanto não causaram nenhum acidente. Este vem sendo meu roteiro culinário no famigerado feriado de carnaval.

Pra não dizer que eu estive só na cozinha, já dei dois belos passeios de bicicleta em dois dias - um recorde absoluto! Num deles fui conhecer a fazenda de produtos orgânicos aqui perto e no outro achamos um lugar surpreendente escondido bem perto de casa. Claro que fiquei morta de cansada, mas no saldo final valeu a pena o esforço.

Diário de um domingo de carnaval.

[19/02/2012 - 10:43] - Ricota sorando para o recheio da esfiha.
[19/02/2012 - 11:35] - Sorvete de amora no freezer para a sobremesa.

Vi esse de sorvete [na verdade frozen yogurt] de amora aqui, com a referência de que era uma receita do programa do Jamie Oliver. Tinha muitas amoras congeladas, da última temporada em que as frutinhas dominaram a paisagem na minha rua, e elas não acabaram ainda. Tem mais uns 400 gramas que darão para uma geleia ou uma torta, ou ambos. Comprei um garrafão de iogurte já pensando nisso, porque embora eu tenha me apegado a tarefa de fazer sorvete, esse lance de um litro de creme de leite e gemas e tal não pode ser sempre. Nas minhas regras pessoais, inventadas sem sentido ou critério algum, apenas pela genuína necessidade de delimitar as coisas rotineiras, acho que vou instituir o ciclo do sorvete caseiro em que os sorvetes com creme serão produzidos entre dois sorvetes de iogurte ou de frutas puras [como o de banana] ou tipo sherbet [que ainda não testei]. É a regra "gordura sim, gordura não" colocada em vigor nesse instante.

Já fiz o sorvete e não tem mais volta,  mas tive a impressão que a consistência não será melhor que a do meu último frozen de amoras. Vamos esperar para ver e segundo meu companheiro para usar, finalmente, a colher de sorvete. É comprei uma colher de sorvete de verdade, que suponho - ainda não testei - fazer bolas bonitas e bem acabadas. No mundo paralelo daquele que compartilha este lar comigo, eu só fiz o sorvete para usar a colher, mas não é verdade, pois eu nem lembrava dela quando decidi fazer. Sendo que, caso ele não me lembrasse, era capaz de eu tirar o sorvete com as colheres de mesa comuns aqui de casa, tamanho é a meu nível de avoamento.

[21/02/2012 - 10:42]

Já tomei o sorvete de amora e minhas suspeitas se comprovaram. A minha versão é melhor que a do sujinho do Jamie Oliver. Que pena! Além de tudo, a estreia da colher de sorvete foi vergonhosa, perdendo apenas para as cenas de lasanha desmontando na hora de servir. Quando fomos experimentá-lo, peguei a colher cheia de empolgação, retirei o pote do freezer, abri todos os invólucros com cuidado e no momento de meter a colher... O frozen tava mole demais e, como era de se esperar, nada de bola de sorvete. Mesmo assim, coloquei ele nos potinhos para o comentário dos que apenas observavam a cena: "Tá igual acaí!" Droga! Mas eu não perdi de zero, o gosto ficou satisfatório, mas não gostei da amora dominando o sabor do iogurte.

Esqueci de falar porque o sorvete deu calo na ponta dos dedos. Foi porque a burrinha aqui, congelou um monte de amora, adivinhem, com cabinho. Na hora de usar tive que ficar removendo os cabinhos um a um e quase perdi a sensibilidade dos dedos fazendo isso. Lição: nunca congele amoras com os cabos. Pelo menos agora o restante da amora congelada já está devidamente sem cabos e pronta para o uso. Só na minha cabeça preguiçosa mesmo para congelar a coisa sem estar pronta para usar no momento da necessidade. Se eu parar para pensar meio segundo, vejo que não tem nenhum sentido fazer isso, já que o que era pra facilitar o cotidiano culinário vira um problema com potencial para infernizar o dia.

Voltando as esfihas, que eram para ser o objetivo deste post, elas só foram feitas ontem, porque no domingo decidi em favor de um bolo para atender pedidos clamorosos e aplacar vontades incontroláveis. A receita do bolo fica para outro dia, espero que não muito longe, pois essa receita é umas das favoritas aqui de casa e é sempre muito solicitada. Apesar de que quando eu perguntei ao meu querido companheiro se esse era o bolo favorito dele ele foi taxativo ao afirmar que não sabia. Como ele não sabia, ele sempre pede esse bolo. "É porque tem um monte de bolos que eu ainda não experimentei e não posso dizer isso antes de comer todos os outros."

Ontem - dia da esfiha - repetimos pela manhã o passeio de bicicleta que fizemos no sábado. E preciso dizer que fico muito feliz de não me deixar levar pela preguiça algumas vezes, especialmente neste feriado, em que conhecemos muitas coisas e lugares apenas passeando de bicicleta. Vou usar a descrição do meu queridinho para definir o lugar e somente uma foto para ilustrar a descrição e comprovar a impressão que ele teve.

"Parece aqueles cenários que você vê em filme. Você nunca esperaria encontrar algo assim."

Em cima. Barragem.

Embaixo. Cachoeira.
Não preciso falar nada.

E é a mais pura verdade. Além da paisagem em si, a surpresa da descoberta e a sensação de estar explorando e quase que desbravando os lugares é muito gratificante. O local fica aqui bem perto de casa e chegamos lá pela primeira vez no sábado, num dos passeios. Infelizmente a câmera estava sem bateria e não fizemos fotos do dia da descoberta. Ontem voltamos lá acompanhados pelo nosso vizinho com seu filho. Todos de bicicleta, porém sem muita disposição. Seguimos algumas trilhas no meio do mato seguindo um riozinho, mas em um dado momento, o mato acabou e para nós restou enfiar os pés na água e seguir "caminhando por dentro do rio". Ótima sensação! Apesar do pé molhado, do tênis cheio de areia e da meia que terei que jogar fora tamanho foi o estrago. E o melhor, sentar na ponta de uma barragem antiga e lavar os pés pra voltar pedalando morro abaixo. Vou repetir uma frase certeira que vi no twitter da Ana Elisa do La Cucinetta, que está num momento offline.

"Toda decisão que você toma tendo como base a preguiça, é uma decisão equivocada."

A frase pode não ser bem desse jeito, mas parece que foi feita para mim, porque deixo muita coisa de lado por causa da preguiça. Até escrever nesse blog é uma iniciativa que está diretamente ligada ao desconforto que me causa saber que a inércia é uma das minhas características mais marcantes e, claro, frustantes.

Quando voltamos do passeio, almoçamos e fui começar a fazer a esfiha. Fiz a massa com: 100 gramas de farinha de trigo, 100 gramas de farinha integral, cerca de 20 gramas de gérmem de trigo e 30 gramas de semolina, 1 colher de chá de açúcar, meia colher de sopa de fermento seco, duas colheres de sopa de iogurte, 100 ml de água, 50 ml de buttermilk, 50 ml de óleo de canola e meia colher de chá de sal. A massa ficou descansando em temperatura ambiente e ficou muito pegajosa. Levei um tempão sovando, mas no fim ela ficou super macia.

Estou aqui falando dela e tive que ir lá pegar uma pra comer, não resisti. No dia seguinte ela ficou até mais gostosa.

Depois foram os recheios: um de espinafre, ricota caseira, alho poró e nozes. Só picar tudo - cru mesmo - misturar com a ricota e usar. Para o outro recheio usei carne de soja, da seguinte maneira: hidratei a carne em cubos com um raminho de alecrim, depois processei ela com meia cebola, um dente de alho, salsinha crespa, sementes de mostarda, pimenta calabresa, zathar, sal e molho shoyo. A carne de soja tem a vantagem de ficar bem sequinha e não precisar cozinhar previamente para servir de recheio. No forno ela vai incorporar melhor os temperos e cozinhar junto com a massa.

Uma coisa que me incomoda na coisa toda de fazer esfiha é o trabalho que dá ficar montando uma a uma, já que para tal tarefa me faltam alguns requisitos como paciência e habilidade. Na terceira esfiha eu já estou amaldiçoando o recheio que não acaba e os salgados começam a assumir formas geométricas estranhas, nada parecidos com triângulos equiláteros. Sinto que meu negócio não é a delicadeza. Contudo, agradeço por ter tido a iluminação que me fez desistir de fazer a receita inteira, com 500 gramas de farinhas. Já que isso ira me render muito mais esfihas que a minha capacidade de manter a calma e o equilíbrio na hora de recheá-las.

Infelizmente, o recheio de espinafre vazou em algumas esfihas, devido a ricota que estava muito fresca e úmida. Tudo bem que ajudou um pouco o fato de eu ter colocado muito recheio em algumas delas - foi a muita falta de paciência falando mais alto. O fato é que, contrariando as espectativas, ou não, a de espinafre teve ótima saída. Até eu que tinha preconceito com o espinafre fiquei feliz com o resultado [não o estético]. De tudo isso, o melhor, como sempre, são os comentários:

"Ficaram muito boas. Você tinha razão [viram, eu tinha razão - eu já sabia] sobre não existir comida ruim e sim mal-feita. Essa de espinafre ficou ótima. [coloquei aqui uma boca cheia de esfiha]."

Só um adendo muito atrasado. Não consegui nenhuma foto da sfiha para postar, o que é uma pena jpa que elas ficaram muito boas. Só que às vezes eu me esqueço das fotos ou a comida não era muito fotogênica, como foi o caso da sfiha de espinafre com ricota. Eu até ia fazer um cenáriozinho para as de carne de soja, mas comemos no almoço e na hora acabei esquecendo.